terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pesquisa IPEA constata aumento da população negra

O IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, publicou recentemente dados que mostram que a diferença de número entre negros e brancos na população vem caindo. Os grupos de afro-descendentes e brancos seriam em torno de 93 milhões cada.

Segundo Maria Inês Barbosa, o crescimento da população negra não tem a ver apenas com o crescimento demográfico do país e, sim, com a melhoria na auto-estima dessa parcela da população. Isto é, mais gente se reconhece como negro/negra.

O crédito deve ser dado principalmente aos movimentos que, ao longo dos últimos trinta anos, vêm lutando para resgatar a identidade e a cidadania afro-descendente, seja através da cultura, da política, da educação, organizando revistas, livros, saraus, feiras, grupos de jovens, ongs, cursos, encontros, caminhadas, passeatas, cantando, dançando, e vêm fazendo isso com parcos recursos, enfrentando todo tipo de indiferença ou hostilidade, mostrando que, embora seja necessário persistência para mudar algo, a mudança é possível.

Entretanto, apesar do aumento do auto-reconhecimento, as desigualdades permanecem em todos os campos, seja entre negros e brancos, seja entre homens e mulheres. Na educação, por exemplo, enquanto 95% de crianças negras e brancas cursam o ensino fundamental, no ensino médio há uma diferença: os brancos são 60% e os negros, 37% (a pesquisa não aborda o ensino superior, mas pode-se supor uma diferença maior). Em termos de renda, em média homens negros recebem metade do que os brancos, as mulheres brancas recebem 63% e as negras, 32% do que ganham os homens brancos.

São números que confirmam de forma exata e incontestável o que a gente sabe e sente no dia-a-dia. Antes que tome corpo a tentação de se atribuírem tais diferenças a características de personalidade individuais ou coletivas, é necessário pensar que elas têm raízes históricas.Isso mostra que, apesar de políticas públicas voltadas à questão racial estarem sendo implementadas cada vez mais nos últimos anos, elas ainda sofrem resistência e se tornam tímidas diante do tamanho das diferenças. É preciso mais e melhores políticas voltadas sobretudo à infância e juventude, dirigidas à cultura e à educação. A educação pode proporcionar mais tempo de escolaridade, mas isso só não garante menos discriminação, é preciso também mais cultura, mais autoconhecimento.

E se a questão é política, também é preciso reconhecer que é tímido ainda o voto étnico, é quase inexistente a eleição de legisladores não só comprometidos com a luta antidiscriminatória e pró-democracia, mas que sejam afro-descendentes. É pouco o conhecimento ou a confiança que a população afro tem em candidatos que possuam uma compreensão interna do quão alto é o muro que separa essa população da cidadania plena.

Quem sabe as eleições do próximo mês nos mostrem que a mudança é possível? Quem sabe haja uma transformação de mentalidade em curso e essas eleições nos tragam surpresas positivas? Afinal, por que não podemos ter mais representantes exercendo o poder, propondo as políticas que são necessárias para acabar com as desigualdades?
Axé! Quilombhoje

Abaixo segue link para o pdf da pesquisa:
Leia na íntegra a pesquisa.

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