segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Texto sobre Rosa - - Recordar é viver!

                A ROSA VERMELHA DO SOCIALISMO* 

 

            Neste mês completou-se 85 (hoje 90) anos do assassinato da revolucionária comunista Rosa Luxemburgo. Ela foi uma das pioneiras na luta contra o revisionismo teórico que irrompeu no interior da social-democracia alemã através dos textos de Eduard Bernstein. Combateu duramente o oportunismo de direita que ganhou corpo nas direções dos sindicatos alemães e defendeu ardorosamente a experiência da revolução russa de 1905. Quando da traição da Segunda Internacional, em agosto de 1914, se colocou ao lado de Lênin contra a guerra imperialista e na defesa do socialismo. No discurso de abertura do Congresso de Fundação da Terceira Internacional, em março de 1919, o próprio Lênin homenageou esta heroína do proletariado mundial: a águia polonesa.

           

            O ATO FINAL

 

            Era dia 15 de janeiro, as ruas de Berlim estavam tensas, por toda parte viam-se os vestígios dos combates dos dias anteriores. As tropas do exército alemão e os grupos para-militares, os "corpos livres", desfilavam imponentes pelas ruas.

            Uma batalha havia sido perdida, mas não a guerra. Assim pensavam Rosa e Karl Liebknecht, quando foram seqüestrados e levados ao Hotel Éden para averiguações. De lá deveriam seguir para a prisão, onde já se encontravam centenas de operários revolucionários. Mas o cortejo faria um outro caminho, que não era o da prisão nem do exílio. A burguesia e os generais alemães já haviam decretado a sua sentença. Os dois foram conduzidos ao zoológico municipal de Berlim onde acabaram sendo brutalmente assassinados. Decerto, alguém se perguntava: "Quantos tiros seriam necessários para matar o sonho da revolução alemã? No zoológico de Berlim quem seriam os animais?".

            Pouco mais tarde dois corpos, sem identificação, foram jogados nas águas frias do canal Landwehr. A reação não queria deixar provas do horrendo crime que cometera; no entanto, todos sabiam quem eram os seus autores. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht estavam mortos, mas a história que eles construíram se manteria viva na consciência dos trabalhadores socialistas de todo o mundo.

           

OS PRIMEIROS PASSOS

 

            Quem se prendesse apenas na sua origem social, decerto, não poderia entender como aquela menina, nascida em 5 de março de 1871, filha de uma abastada família de judeus poloneses, pode se transformar na Rosa, rosa vermelha, destacada dirigente do movimento comunista internacional. Mas o ambiente efervescente reinante na Polônia, então dominada pela Rússia tzarista, levava a que  muitos jovens, como Rosa, se engajassem nos movimentos contestatórios, primeiro aderindo ao ativo movimento estudantil contra as estruturas repressivas mantidas pelo governo russo nas escolas polonesas e depois nas lutas mais gerais do movimento operário e socialista. Esta também foi o caminho que Rosa escolheu.

            Em 1889, com apenas 19 anos, vê-se obrigada a deixar a Polônia exilar-se em Zurique, onde concluiu os seus estudos, doutorando-se em Economia. No exílio, em 1894, juntamente com seu companheiro Leo Jogiches, ajuda fundar no exílio o Partido Social-Democrata da Polônia. Pouco a pouco Zurique se tornava calma e pequena demais para os grandes planos e para a personalidade agitada de Rosa, por isso resolve em 1898, se transferir para o centro da luta de classes do momento, o coração da revolução européia: a Alemanha.

           

REFORMA E REVOLUÇÃO

 

Chegando a Alemanha, ingressa imediatamente no Partido Social-Democrata Alemão (PSDA), o maior partido operário do ocidente, e logo se veria envolvida no centro de numa grande polêmica, que agitava todo partido. Uma polêmica que podia ser traduzida em um único e decisivo dilema: Reforma ou Revolução?

            O crescimento relativamente pacífico do capitalismo alemão e europeu e a conquista de maiores liberdades democráticas propiciaram um avanço eleitoral sem precedente para a social-democracia. Isto levou a que muitos dirigentes acalentassem  a esperança de que houvesse outra alternativa para a conquista do socialismo que não fosse a via revolucionária. O principal teórico dessa via reformista foi Bernstein, dirigente do PSDA e, até então, considerado herdeiro de Engels do qual havia sido amigo.

            Bernstein apregoava que o desenvolvimento do capitalismo não levava a monopolização crescente da economia, como afirmava Marx, mas a sua democratização, através do aumento do número de proprietários, graças a introdução das sociedades por ações. Esta tendência levaria a um fortalecimento das classes médias e não a sua redução, eliminando assim as previsões "catastróficas" de Marx sobre o choque inevitável entre burgueses e proletários. O desenvolvimento do capitalismo não levaria a crise, pois ele mesmo desenvolveria meios de controle através da melhor organização da produção e do planejamento. O socialismo deixava de ser uma necessidade histórica para se transformar em uma possibilidade, cada vez mais remota.

            Este tipo de concepção leva Bernstein a elaborar uma nova tática, que privilegiava a luta parlamentar e sindical. Segundo ele seria através do voto que o trabalhador se elevaria "da condição social de proletário para àquela de cidadão". A luta sindical por melhores condições de trabalho e salários seria o instrumento privilegiado para conduzir a sociedade capitalista, através das reformas econômicas, para o socialismo. Na verdade estas reformas já seriam a própria realização molecular da nova sociedade socialista. É de Bernstein a famosa frase: "o movimento é tudo e o fim nada significa".

            Rosa foi uma das primeiras a se insurgir contra tais teses, que contradiziam a essência do marxismo revolucionário, escrevendo, em 1899, uma das mais belas obras contra o revisionismo de Bernstein: "Reforma Social ou Revolução?". Nesta obra ela desmantela, com maestria, uma a uma as teses reformistas contribuindo assim para que elas fossem rejeitadas pela maioria do partido, embora continuassem a exercer grande influência sobre vários de seus dirigentes, que as retomariam em outras ocasiões.

            O objetivo final do socialismo, afirma Rosa, "é o único elemento decisivo na distinção entre o socialista e o radical burguês". A política apregoada por Bernstein "visava uma única coisa: conduzir-nos ao abandono do objetivo último, a revolução social, e, inversamente, fazer da reforma social, de simples meio de luta de classes, em seu fim". Rosa, portanto, não negava o papel das reformas, mas acreditava que "entre a reforma e a revolução devia haver um elo indissolúvel" no qual "a luta pela reforma é o meio e a revolução social é o fim". E quanto a possibilidade de chegarmos gradualmente ao socialismo através de uma legislação social aprovada pelo parlamento burguês, ela diria ironicamente:

            "Quanto Bernstein põe a questão de saber se esta ou aquela lei de proteção operária é mais ou menos socialista, podemos responder-lhe que: a melhor das leis (...) tem mais ou menos tanto socialismo como as disposições municipais sobre a limpeza  de ruas". As leis sociais aprovadas no parlamento burguês eram importantes apenas na medida em que contribuíam para elevar o nível da consciência da classe operária e criavam assim as melhores condições para que ela avança-se na sua luta pelo objetivo final que era a conquista do socialismo.

            As críticas contundentes e mordazes da pequena Rosa mostram muito bem a sua coragem e o seu espírito revolucionário. Poucos no partido naquele momento ousariam a desafiar a autoridade de Bernstein, muito menos compará-lo a um radical burguês. Era uma disputa desigual, mas novamente a história se repetiria e o pequeno Davi venceria o gigante Golias.

            As teses de Bernstein são criticadas nos congresso da social democracia alemã em Hannover (1899), em Lubeck (1901). No congresso de Dresden, em 1903, o dirigente social-democrata Bebel apresentaria uma dura moção contra Bernstein: "O Congresso condena de maneira mais decidida o intento revisionista de alterar a nossa tática, posta a prova várias vezes e vitoriosa, baseada na luta de classes (...) Se adotássemos a política revisionista nos constituiríamos em um partido que se conformaria apenas com a reforma da sociedade burguesa."

            O Congresso da Segunda Internacional de 1904, em Amsterdã, foi marcado por este debate e novamente as teses de Bernstein foram derrotadas. Mas ele e seus adeptos continuaram no partido e na Internacional, inclusive na sua direção, e ali esperariam nova oportunidade para retomar ofensiva contra o marxismo-revolucionário.

 

            ROSA E A POLÊMICA NA SOCIAL-DEMOCARACIA RUSSA

 

            Em 1904, intervindo numa polêmica russa, faz várias criticas as posições de Lênin sobre a organização do partido social-democrata russo. Rosa julgava as propostas de Lênin tendo como ponto de referência a Alemanha e não a Rússia czarista. A fórmula organizativa de Lênin – partido de revolucionários profissionais – correspondia à situação política vivida na Rússia onde todas as organizações operárias e socialistas eram obrigadas a trabalhar na mais irrestrita ilegalidade (inclusive para os sindicatos classistas). Portanto a realidade russa impunha uma organização clandestina e centralizada. Para Lênin os métodos de organização e a abrangência da democracia partidária não poderiam ser considerados abstratamente, fora das condições históricas nas quais o partido deveria atuar. 

Apesar da crítica feita a política organizativa de Lênin, um ano depois estava ao lado dele na defesa da revolução russa de 1905, que mostrava ao proletariado mundial a única via possível para a sua emancipação. Rosa passa então a estruturar a ala esquerda do PSDA.

 

            CONTRA A BUROCRACIA SINDICAL

 

            A social-democracia alemã já havia desenvolvido a compreensão de que o partido revolucionário era uma forma superior de organização da classe operária. Era o partido, como vanguarda da classe, que deveria dar a direção política às organizações sindicais e populares.

            Bebel, um dos principais dirigentes da social-democracia alemã, já havia dito: "Não é da ação sindical que devemos esperar a tomada de possessões dos meios de produção. É preciso, antes de tudo, tomar o governo que monta guarda ao redor da classe capitalista".  Isto só poderia ser conseguido através da luta política revolucionária, dirigida pelo partido social-democrata.

            Mas o rápido crescimento dos sindicatos iria criar distorções na relação entre os dirigentes partidários e sindicais. Em 1904 o número de sindicalizados ultrapassava a marca do um milhão. Os filiados ao partido social-democrata não chegava aos 400 mil.

O crescimento do número de sindicalizados, o maior desenvolvimento da economia capitalista, que lhe possibilitava aos patrões fazerem maiores concessões aos trabalhadores organizados, permitiram a construção de poderosas máquinas sindicais (sedes, gráficas, editoras, clubes e inúmeros funcionários) e acumulação de vultosos fundos financeiros.

            Neste período aparece, com força, o fenômeno do burocratismo. Não é sem razão que as direções dos sindicatos alemães foram tomadas de verdadeiro pavor quando a revolução russa de 1905 veio abalar o curso do desenvolvimento "pacífico" do capitalismo alemão. O órgão oficial da central sindical social-democrata afirmaria: "Não somos de nenhum modo partidário das demonstrações de rua". O congresso sindical realizado em Colônia chegou mesmo a aprovar uma resolução contrária a utilização da greve geral como instrumento de pressão operária contra o Estado e os patrões. Para os burocratas sindicais qualquer ação mais ampla e radical das massas operárias levaria necessariamente a uma desorganização dos sindicatos e ao fim da sua hegemonia.

            Rosa faz então uma dura crítica aos dirigentes sindicais, apontando as causas do seu reformismo. "Os funcionários sindicais, afirma ela, tornaram-se vítimas da burocracia e de uma certa estreiteza de perspectiva devido a especialização da sua atividade profissional e mesquinhez dos seus horizontes, resultado de um fracionamento das lutas econômicas em período de calmaria. Esses dois defeitos manifestam-se em diversas tendências que podem ser fatais para o futuro do movimento sindical. Uma delas consiste em sobre-valorizar a organização transformando-a, pouco a pouco, num fim em si mesmo e considerando-a um bem supremo a que os interesses da luta devem ser subordinados. Assim se explica (....) essa hesitação ante o fim incerto das realizações de massas e enfim a sobrevalorização da própria luta sindical (...) E, no fim das contas, o hábito de silenciar sobre os limites objetivos impostos pela ordem burguesa à luta sindical, transforma-se  numa guerra aberta a qualquer crítica teórica que acentue esses limites e lembre o fim último do movimento operário."

            Quando o Congresso do PSDA realizado em Jena aprova, em tese, a importância da greve geral e a possibilidade de sua utilização em casos excepcionais, os líderes sindicais não perderam tempo e formularam a tese sobre a necessidade da independência dos sindicatos em relação ao Partido e ratificam sua posição antigreve. Legien, o principal dirigente sindical da social-democracia na Alemanha, afirmaria: "para os sindicatos o que conta não é a resolução tomada no Congresso de Jena, mas a tomada em Colônia".

            Rosa seria uma das principais críticas desse oportunismo sindicalista. "Os sindicatos, afirmaria ela, representam os interesses de grupos particulares (...) a social-democracia representa a classe operária e os interesses gerais de sua emancipação (...) As ligações dos sindicatos com partido socialista são as de uma parte com o todo". A chamada "igualdade de direito" entre sindicatos e o partido socialista não seria "um simples mal entendido, uma simples confusão teórica, mas exprimiria uma tendência bem conhecida da ala oportunista".

            Defendendo o ponto de vista predominante até então no seio da social-democracia  ela se coloca contra o fato "monstruoso" de que nos congressos do partido e dos sindicatos os militantes socialista estivessem fazendo aprovar resoluções não apenas diferentes como opostas. Para solucionar o impasse ela propõe "subordinar de novo os sindicatos ao partido, para o interesse próprio das duas organizações. Não se trata de destruir a estrutura sindical no partido, trata-se de estabelecer entre as direções do partido e os sindicatos (...) uma relação entre o movimento operário em seu conjunto e o fenômeno particular e parcial chamado sindicato".

            A contradição entre as direções dos sindicatos e do partido só existiu enquanto a maioria da direção sindical se manteve à direita da direção partidária. Com o passar do tempo e a vitória das teses revisionistas e reformistas no interior do próprio partido as posições destas duas instâncias tenderam a se harmonizar.  

         

A FALÊNCIA DA II INTERNACIONAL

 

            A história da luta de classe trilha caminhos tortuosos e contraditórios: as vitórias eleitorais e sindicais do PSDA, somente reforçavam as posições reformistas no seu interior. Em 1912 o partido obteve mais de 4 milhões de votos, elegendo 110 deputados, tornando-se a maior bancada no parlamento alemão.

            Em 1914, quando do início da Primeira Guerra Mundial, as posições de direita já haviam conquistado a maioria da direção da social-democracia alemã e européia, que acabou rasgando todas as suas resoluções anteriores, colocando uma pedra no seu passado revolucionário, ao votar favoravelmente aos créditos para a guerra imperialista. "Desde 4 de agosto de 1914, afirma Rosa, a social democracia alemã é um cadáver putrefato."

Rosa seria presa ainda em 1915 devido ao pronunciamento de um violento discurso contra a guerra e o imperialismo. Na prisão, ela escreveria a sua obra clássica "A crise da social-democracia", que ficaria conhecida como "Folheto Junius". Esta seria saudada por Lênin como sendo um "esplêndido trabalho marxista".

No mesmo período ela também escreveria "Teses sobre as tarefas da social-democracia internacional", que deveria ser uma contribuição da esquerda social-democrata alemã para a Conferência internacional de Zimmerwald.  Neste folheto Rosa afirma: "A guerra esmagou a Segunda Internacional (...) os representantes oficiais dos partidos socialistas dos principais países traíram os objetivos e interesses da classe operária (...) passaram para o campo do imperialismo, constitui uma necessidade vital para o socialismo criar uma nova internacional operária, que tome em suas mãos a direção e coordenação das lutas revolucionárias de classe contra o imperialismo internacional".  Libertada no inicio de 1916 ela continuaria seu trabalho revolucionário o que lhe custaria nova prisão menos  de seis meses depois de sua libertação.

            Em 1916 realiza-se uma conferência da esquerda social-democrata que decide pela publicação de um periódico com o nome Spartacus, nome pelo qual ficaria conhecido o grupo liderado por Rosa e Karl. Em seguida Liebknecht é expulso do grupo parlamentar social-democrata, que autoriza as autoridades alemãs abrir processo contra ele.

No primeiro de maio o grupo Spartakus organiza uma grande manifestação contra a guerra imperialista. O resultado imediato é a prisão de Karl, acusado de traição a pátria. Os dois revolucionários alemães ficariam presos até que a revolução de 1918 viesse libertá-los.

            A capitulação da direção diante da onda nacionalista e belicista leva a uma fissura profunda no seio do partido; formava-se, assim, dois grupos de oposição: os "centristas" liderados por Kautsky e os "espartaquistas", que acabariam por se fundir em 1917 no Partido Social-Democrata Independente, um partido que apesar de possuir um programa internacionalista e antibelicista, graças aos centristas, atuava de forma vacilante e defensivo diante da traição da direção do PSDA. Os espartaquistas continuavam a manter sua autonomia política dentro da nova organização.

 

            ROSA E A REVOLUÇÃO RUSSA

 

            Em 1918 Rosa escreveria uma série de artigos nos quais defendia a revolução socialista na Rússia que estava sobe ataque cerrado da direita e do centro social-democrata, inclusive de Kautsky.

A capacidade bolchevique de vencer todas as dificuldades impostas pela contra-revolução empolgava Rosa: "Os bolcheviques têm demonstrado que podem fazer tudo o que um partido verdadeiramente revolucionário pode fazer nos limites das possibilidades históricas. Não procuram fazer milagres. E seria um milagre uma revolução proletária modelar impecável num país isolado, esgotado pela guerra, premido pelo imperialismo, traído pelo proletariado internacional (...) E é nesse sentido que o futuro pertence em toda parte ao 'bolchevismo'".

O apoio irrestrito a revolução não impediu que ela fizesse várias críticas as medidas revolucionárias adotadas pelos bolcheviques. Uma parte da crítica estava impregnada por certo esquerdismo. Ela, por exemplo, menosprezava a necessidade da aliança com os camponeses pobres e não compreendia a proposta dos revolucionários russos em relação às nacionalidades oprimidas, ela negava a necessidade de incluir no programa revolucionário o direito a autodeterminação dos povos que estavam sob o domínio do império czarista. Considerava estas propostas como concessões perigosas a burguesia. A maior parte das críticas seria revista no ano seguinte quando ela saiu da prisão e pode ter maior contato com experiência revolucionária russa.

Mas uma crítica merece maior atenção, é aquela que trata do processo de construção da ditadura do proletário, que segundo ela era sinônimo de democracia socialista. Ela se preocupava com algumas medidas tomadas pelo governo soviético contra membros de organizações que ela considerava ainda socialistas.

Afirma Rosa: "abafando a vida política em todo país, é fatal que a vida no próprio soviete seja cada vez mais paralisada. Sem eleições gerais, sem liberdade ilimitada de imprensa e de reunião, sem luta livre de opiniões, a vida morre em todas as instituições públicas, torna-se uma vida aparente, onde a burocracia resta como único elemento ativo (...) Algumas dezenas de chefe de uma energia infatigável e de um idealismo sem limites dirigem o governo e, entre eles, o que governam de fato são uma dezena de cabeças eminentes, enquanto uma elite da classe operária é convocada de tempos em tempos para reuniões com o fim de aplaudir os discursos dos chefes e de votar unanimemente as resoluções que lhes são apresentadas (...) Ainda mais: um tal estado de coisas deve provocar necessariamente uma 'barbarização' da vida pública, atentados, fuzilamentos de presos, etc".

Rosa não conhecia as particularidades do desenvolvimento da luta de classes na Rússia pós-revolução, por isso ela tendia a desconsiderar o papel desempenhado pelas forças contra-revolucionárias, em muitos casos, apoiadas por partidos ligados a Segunda Internacional, que ainda se diziam socialistas. Mas as medidas restritivas a democracia operária, tomadas pelos bolcheviques, deveriam também ser debitadas as difíceis condições em que vivia a jovem Rússia soviética entre 1918 e 1921, condições que ela tão bem descreveu nos seus  textos escritos na prisão em 1918.

A verdadeira tragédia está no fato de que as medidas discricionárias que deveriam ser provisórias, necessárias numa fase de consolidação do socialismo contra a reação armada interna e externa, se transformaram em políticas de Estado permanentes, realizando assim as previsões mais sombrias de Rosa sobre o futuro da democracia socialista na Rússia. Se a crítica de Rosa se encontrava desfocada naqueles primeiros anos da revolução russa ela cairia como uma luva nas novas condições que se formaram na segunda metade da década de 30.

 

A REVOLUÇÃO ALEMÃ DE 1918

 

            Na Alemanha, pouco a pouco, o sentimento nacionalista dos primeiros dias da guerra era substituído pela revolta. Nas fábricas os operários se agitavam diante do alistamento militar forçado, os constantes cortes nos salários e o racionamento. O descontentamento chega as tropas, principais vítimas da carnificina imperialista. Em junho de 1917, os marinheiros se rebelam e são violentamente reprimidos, com aval do PSDA.

            Da prisão os espartaquistas conclamam "não há senão um meio de deter a carnificina dos povos e alcançar a paz: é desencadear uma luta de massas que paralise toda a economia e a indústria bélica, é instaurar através da revolução, liderada pela classe operária, uma República popular na Alemanha".

            A revolução de outubro na Rússia apenas serviria para acirrar os ânimos. Nas frentes de batalha os soldados se confraternizavam, nas cidades as greves cresciam, formavam-se conselhos de operários e soldados. O governo e a monarquia eram colocados em cheque pelas massas. Em  9 de novembro de 1918, irrompe uma rebelião em Berlim e o próprio PSDA é obrigado, pela pressão dos operários, a aderir ao movimento. Os soldados recusam-se a cumprir as ordem oficiais e confraternizam-se com o povo. A revolução vencera.

            O governo desaba como um castelo de carta.. O Imperador Guilherme III abdica e entrega o poder ao chanceler Max Baden que por sua vez entrega a Ebert, dirigente máximo do PSDA. Para muitos a revolução parecia ter chegado ao fim. Ebert lança uma conclamação: "Cidadãos, peço-lhes que abandonem as ruas, cuidem da tranqüilidade e da ordem". Ao mesmo tempo, contra a vontade de Ebert, outro membro de seu partido, Scheidemann, proclama a República. A poucos metros dali uma multidão de operários se concentra para ouvir Karl Liebknecht, recém libertado da prisão, que proclama a necessidade de uma república, mas não uma república burguesa disfarçada de república social, como queriam Scheidenann e Ebert, mas uma república socialista baseada nos conselhos de operários e soldados.

            Ebert então se apressa para formar um novo governo do qual participam o PSDA e a ala direita do Partido Social-Democrata Independente. A pressão popular impede a participação de membros dos partidos burgueses. Liebknecht é convocado a participar do novo governo, mas impõe uma condição: que todo poder fosse entregue aos conselhos operários, o que não é aceito. Então os espartaquistas, fora do governo, resolvem continuar nos seus preparativos de insurreição.

            "Nós pedimos, pelo contrário, que ninguém abandone as ruas e que todos permaneçam armados. A conclamação do novo chanceler, que substituiu o derrotado imperador, procura enviar as massas para os seus lares para melhor poder estabelecer a velha ordem das coisas. Operários e soldados: permanecei alerta!"

            A luta atinge outro patamar, a burguesia se escondia por detrás de um "partido operário", justamente o partido que havia pertencido Marx e Engels. O inimigo agora se disfarçava sob o manto respeitoso de um partido socialista.

            No dia 16 de dezembro, o Conselho Nacional, que congregava todos os conselhos operários, dominados pelo PSDA, decide entregar todo o poder a Assembléia Nacional Constituinte a ser eleita em janeiro. Novamente as direções operárias capitulavam diante da burguesia.

            Em 29 de dezembro de 1918, diante das vacilações do Partido Social-Democrata Independente, que aceitara participar do governo, os espartaquistas rompem e fundam o Partido Comunista da Alemanha. Neste congresso aprova-se a tese de não participação nas eleições para a Assembléia Nacional Constituinte e a continuação dos preparativos para a insurreição armada. Tais posições não correspondiam ainda a real correlação de forças do movimento social na Alemanha, por isso tanto Rosa como Karl foram reticentes quanto a sua aprovação.

            No início de 1919 um ato de provocação do governo precipita os acontecimentos. Marinheiros amotinados são brutalmente reprimidos pelo exército, os operários saem as ruas em solidariedade. O chefe da polícia, ligado a esquerda do PSI, recusa-se a reprimir as manifestações e é demitido do cargo. O PCA e a esquerda do PSI se unem e convocam manifestações de protestos contra Ebert-Scheidemann e a sua camarilha, "estes representante disfarçados dos interesses burgueses".

Uma multidão invade o distrito da imprensa, onde se encontravam os jornais reacionários. Naquela mesma noite, o PCA decide-se pela insurreição geral. No dia 9 de janeiro, num ato inesperado, os operários espartaquistas tomam o parlamento alemão, o Reichstag, mas são rapidamente desalojados pelo exército. Depois de cinco dias de violentos combates a insurreição era derrotada. No dia 13, os operários começavam a voltar ao trabalho. No dia 15, em meio a avaliação do movimento, Rosa e Karl Liebknecht, os principais líderes do levante, são seqüestrados e assassinados.

            Nas últimas linhas do seu último artigo Rosa escreve: "'A ordem reina em Berlim', Esbirros estúpidos! Vossa 'ordem' é um castelo de areia. Amanhã a revolução se levantará de novo clamorosamente, e para espanto vosso proclamará: Era, sou e serei".

           

EPÍLOGO

 

Após a sua morte, Rosa passa a ser o centro de violentas críticas, em especial, por parte dos renegados do marxismo, reformistas de toda ordem. Em sua defesa viriam as palavras firmes de Lênin:

            "A esses (críticos) responderemos com um velho ditado russo:

             Às vezes as águias descem

             e voam entre as aves do quintal,          

             mas as aves do quintal jamais

             se elevarão até as nuvens'

            Rosa equivocou-se em muitas coisas, a respeito da independência da Polônia, na análise dos mencheviques em 1903, na sua teoria da acumulação de capital (...) equivocou-se no que escreveu na prisão de 1918 (corrigiu a maioria desses erros no final de 1918 e início de 1919, quando voltou à liberdade). Mas, apesar de seus erros, foi para nós e continua sendo uma águia".     

 

* Este artigo foi publicado originalmente na revista Debate Sindical nº30,  jul/ago/1999

 

                                                           Augusto César Buonicore




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