terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Por um Fórum Social Latino-americano em 2010
 
Realizar novo Fórum apenas em 2011 significa deixar dois anos potencialmente para que a "alva melancolia" (na fina expressão do poeta Pedro Tierra) de Davos fique falando sem contraponto, e exatamente quando a aura do Fórum Econômico Mundial está em franco declínio.
 

A decisão do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial de realizar a próxima edição do Fórum Social Mundial apenas em janeiro de 2011 contém um grande equívoco de julgamento sobre o papel do próprio Fórum. O estado de crise em que se encontra o sistema capitalista em sua versão neoliberal, para dizer o mínimo, exige reflexão e respostas contínuas. Inclusive é necessário discutir sua natureza.

Nas entrevistas que realizei para a TV Carta Maior, pontificaram duas visões matriciais, não necessariamente opostas nem excludentes, mas talvez complementares em termos de análise. A primeira foi pontificada por Ignácio Ramonet.. Esta seria a "crise das crises", uma espécie de "crise-mãe" de todas as crises, protagonizada pelo conjunto do sistema. Sem implicar compromisso com as demais idéias dos pensadores citados a seguir, essa visão contém analogias com as de Eric Hobsbawm, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein, para quem, em diferentes graus, essa crise apontaria para uma falência sistêmica cuja qualificação passaria por adjetivos como "terminal" e "final", ou substantivos como"fracasso" e "falência", evidenciando também um gradual "declínio do império norte-americano", para plagiar/parodiar título de conhecido filme canadense.

A segunda foi pontificada pela entrevista de Bernardo Kucinski, colega e colunista da Carta Maior. Para Bernardo a crise não é sistêmica, mas ela tem origem num setor mais frágil desse sistema (o do subsistema de financiamento imobiliário norte-americano e suas conexões), mas o novo desenvolvimento da rede financeira mundial acoplado ao centralismo da economia norte-americana, atraente até para a nova China, fez com que essa crise setorializada tivesse efeitos em escala global. Também sem compromisso com as implicações e alicerces do pensamento de José Luis Fiori, Carlos Medeiros e Fraklin Serrano, essa visão tem analogia com suas idéias expostas no livro "O mito do colapso do poder americano" (Editora Record, 2008), para as quais o que ocorre não é uma crise terminal do poder dos EUA, mas um reordenamento da competição imperialista, na qual Washington continua a ter papel central. Também leva à consideração de que, se nada de diferente ocorrer, as cartas de solução e saídas para a crise continuarão a vir do baralho norte-americano e de seus aliados da União Européia mais o Japão, ao lado dos neo-competidores China e nova Rússia.

De qualquer modo, as visões em sua pluralidade convergem para a constatação de que a crise, seus efeitos e as conseqüências das medidas tomadas para contorna-la são de longo prazo. Complementando essas visões com a de Michel Löwy, também exposta em entrevista na TV Carta Maior, de que o Fórum "é o que temos", quando mais não seja, quer dizer, que o Fórum é a grande arena para onde ocorrem e entram em debate as idéias alternativas à proposta de hegemonia neoliberal em escala mundial, a ocorrência do G-Fórum é o que há de fundamental para se contrapor ao uni-lateralismo do G-8, além dos demais grupos centrados em redes internacionais governamentais, como o G-20. A centralidade do Fórum decorre exatamente de seu caráter não-governamental, embora, em todas essas visões, ao contrário de outras que também campeiam pelo Fórum, não haja uma oposição de "natura" entre as esferas dos movimentos sociais e as governamentais. Pode haver sim uma diferença entre os pontos de vista de onde suas narrativas sejam montadas.

Portanto, realizar novo Fórum apenas em 2011 significa deixar dois anos potencialmente para que a "alva melancolia" (na fina expressão do poeta Pedro Tierra, também na TV Carta Maior) de Davos fique falando sem contraponto, e exatamente quando a aura do Fórum Econômico Mundial está em franco declínio.

Além deste equívoco, a decisão do Conselho tem mais um ingrediente problemático. Segundo ela, o Fórum seguinte deverá se realizar na África, provavelmente na África do Sul ou no Senegal. Nada contra. É impossível ser contra a África. Mas é possível sim ser contra o mal-estar de onde vêm fortes pressões para que o Fórum NÃO (assim com maiúsculas) se realize na América Latina. Essas pressões vêm de representantes de algumas Ongues européias em grande parte, mas secundados por outros de outras plagas, inclusive as nossas, que se sentem incomodados, e não pela primeira vez, pelo protagonismo da política e dos políticos da América Latina.

Para essas vozes foi insuportável ver cinco presidentes reunidos no âmbito do Fórum anunciando decisões da maior importância para combater a crise mundial de um outro ponto de vista que não o de Davos. Essa ojeriza vem da desconfiança, de velha raiz liberal na verdade, que opõe radicalmente "governo" e "sociedade civil", como se fossem reinos divididos por uma cortina de ferro, e não esferas permeáveis de ação e confusão, ops, quero dizer, reação. Mas agora a desconfiança se espraia para uma clivagem algo ridícula de natureza continental (Europa x América Latina) ou hemisférica (Norte x Sul), que nos momentos mais extremados chega ao despautério de reclamar que a língua dominante no Fórum não seja o inglês. Realizar um Fórum nos Estados Unidos é problemático, ainda que tentador, pois submeteria a participação nele aos ditames discriminatórios do Departamento de Estado; o mesmo pode-se dizer da Europa, ainda que em grau menor. Os participantes do Fórum que chegassem, por exemplo, por Madri, para falar o mínimo, poderiam se ver diante das exigências vexatórias que a polícia local tem feito a turistas e visitantes em particular de países do Sul.. A Ásia? "Muito longe" e ainda sem acesso à China. A Oceania também "fica muito longe". Resta a África.

O continente africano também apresenta, como atrativo para esse pensamento disfarçadamente eurocêntrico, um tempero a mais. O território africano, como ficou evidente na edição em Nairobi, é visto por ele como uma espécie de "reserva de mercado", pois as ongues africanas são umbilical e financeiramente dependentes da Europa. No Quênia, onde os movimentos africanos se interessaram demais pelo que acontecia na América Latina com suas revoluções republicanas (o termo é meu), a "rivalidade" eclodiu em comentários freqüentes sobre "o quê", afinal, esses "latino-americanos" estavam fazendo "no nosso" território. Nada como circular nas entrelinhas do Fórum e das declarações oficiais!

Considerações como essas levam a uma consolidação, ainda que por linhas tortas, da visão de mundo onde, diante dos desafios mundiais, protagonismo e decisões cabem ao Norte; para o Sul, ou em direção ao Sul, restam o exercício da caridade, do assistencialismo, ou ainda da 'preservação', desde que as decisões a respeito fiquem no âmbito daquele Norte, cujos padrões de consumo não devem ser imitados, mas também não devem ser questionados pelos "outsiders" da prosperidade mundial.

Diante de tais desafios e de tal contradança, fica a sugestão de que se realize um Fórum Social Latino-Americano, em janeiro de 2010, para não deixar Davos se alimentar da ausência de contra-vozes, entoando na sua "alva melancolia" o novo canto-chão das soluções-remendo de um sistema que, em falência ou em crise setorial, se prova cada vez mais predatório do futuro e do passado, para não dizer dos recursos ambientais, sociais e culturais do presente. Se um outro mundo é possível, agora se comprovou que este mundo, tal qual está, é impossível, e exige respostas contínuas. Um Fórum Social Latino-Americano, aberto ao mundo todo, sem novas centralidades excludentes, ao contrário, com um amplo arco includente de todos os matizes e de todas as línguas e linguagens, seja onde for realizado, é um passo nessa direção. É uma exigência da história. Fica a palavra com os conselhos e entidades que têm o poder legítimo da consideração de uma proposta dessas e de sua convocação, com o comentário indispensável de que empalmar essa idéia não implica empalmar os argumentos deste escriba da Carta Maior.


Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.




>¡Sé el Bello 51 de People en Español!
¡Es tu oportunidad de Brillar! br>Sube tus fotos ya http://www.51bello.com/

AFRO-BLOG'S