quinta-feira, 19 de março de 2009

Crise e novidade

A juventude latino-americana no cenário internacional

 

A crise internacional será o centro das atenções em 2009 e nos próximos anos. Duas constatações iniciais são fundamentais para iniciar as discussões sobre o assunto.

A primeira é de que a crise atual já é a mais profunda e mais extensa desde a crise de 1929, afinal ocorre em um momento histórico sem paralelo de máxima expansão e hegemonia do modo de produção capitalista, o que, junto com o fato de ter surgido no centro do sistema capitalista, contribui para que seus impactos sejam sentidos – de diferentes formas – em todo o planeta. A segunda é de que será de longa duração, uma vez que não há, nem haverá no curto prazo, um poder político capaz de manejar deus desdobramentos e alcançar soluções – pelo contrário, assistimos ao esgotamento das instituições de Bretton Woods, o declínio da hegemonia estadunidense e a desmoralização do neoliberalismo. A crise acelera essa tendência de um mundo em transição, da hegemonia unipolar para a multipolaridade.

Trata-se de uma crise sistêmica do capitalismo, não apenas do mercado financeiro. Ou seja, ainda que a farra e o parasitismo especulativo tenham contribuído para gerar esta crise e determinar algumas de suas características, isto é apenas uma parte do problema. É uma crise clássica de realização do capital, que evidencia a contradição entre a capacidade cada vez maior de produção social e a capacidade cada vez menor de consumo da sociedade. Uma contradição intrínseca de um sistema cuja tendência é aumentar a exploração e diminuir o emprego de força de trabalho. Deste modo, amplia-se a produção de mercadorias, mas a mais-valia nelas contida é contraída. A estabilidade econômica do sistema dependeria da compra massificada destes produtos para a realização dos lucros e da acumulação capitalista, o que não é alcançado justamente porque centenas de milhões de pessoas não têm condições de contribuir com este consumo, nem mesmo para atender suas necessidades básicas cotidianas.

Esta crise não somente desmascara a ideologia neoliberal como também evidencia que o modo de produção capitalista gera crises periódicas e sua vigência é resultado de uma opção política e social movida por interesses de classe, e que, portanto, pode ser transformado. A disputa sobre quem pagará a conta da crise é um bom exemplo de que a evolução e os desdobramentos da crise dependerão da luta de classes em cada país, bem como do confronto de interesses entre diferentes Estados e blocos de países – aqueles que saírem mais rápido e em melhores condições estarão mais bem posicionados para influenciar o novo sistema de poder mundial e o seu caráter.

Deste duplo movimento dependerá a arquitetura do mundo pós-crise e o futuro do capitalismo: a natureza de classes de um possível ciclo de crescimento e desenvolvimento em países periféricos, o modelo do rearranjo da ordem internacional (conservador ou progressista), a possibilidade das contradições políticas evoluírem para rupturas e novas tentativas de construção do socialismo em alguns países etc.

Cabe lembrar, no entanto, que a burguesia, em que pese o abalo político que sofreu e a (pequena) diminuição em suas taxas de lucro, permanece forte, hegemônica e dominante. Nos países centrais, tem conseguido orientar as ações de Estado para que salvem suas propriedades privadas e investimentos (ainda que com pouco sucesso). Nos países periféricos, tem obtido êxito em ocupar espaços, preenchendo lacunas deixadas pelos países centrais profundamente abalados pela crise para alcançar uma posição mais cômoda na futura ordem pós-neoliberal.

A reestruturação produtiva do ciclo de expansão neoliberal do capitalismo globalizado induziu a uma imensa desagregação dos trabalhadores – jovens em sua maioria –, em que enormes contingentes passaram da condição de assalariamento ao desemprego, à informalidade e, inclusive, à margem do processo de reprodução do capital. Neste cenário, a entrada dificultada no mercado de trabalho, cuja influência na juventude é reforçada pelo ciclo vicioso da inexperiência – não conseguem emprego por conta da inexperiência e sem conseguir trabalhar não adquirirem experiência –, impacta sobre um enorme contingente de jovens que iniciam sua inserção profissional.

Os impactos das demissões em massa que já estão em curso serão sentidos com mais intensidade entre os jovens, uma vez que nas relações de trabalho são os que menos têm garantia de direitos e cuja demissão é menos onerosa aos empresários, tanto do ponto de vista econômico quanto político: os jovens geralmente são os que têm menos tempo de trabalho nas empresas e, em alguns casos, menos responsabilidades no sustento familiar em comparação com adultos.

Como resultado, pode se avizinhar um período de ondas migratórias de jovens desempregados dentro de cada país e entre países em busca de oportunidades, somando-se à intensificação do êxodo rural devido à falta de perspectivas dos jovens do campo, impactados pela expansão do agronegócio sobre as unidades familiares de produção.

No que se refere à educação, os impactos da crise já podem ser sentidos pelos jovens, seja com o corte de gastos públicos com o setor seja com as demissões e atrasos salariais de professores na rede privada. Assim, até mesmo a famigerada falta de qualificação dos jovens – responsabilizados individualmente por um problema estrutural de desemprego – sofre abalos diretos.

Quanto à cultura, além dos possíveis contingenciamentos dos orçamentos dos governos para garantir sua produção, acesso e fruição, a crise mantém intacta a influência dos monopólios de comunicação, propagadores da cultura de massas de dominação ideológica das classes dominantes: a competição capitalista e a necessidade de manter o consumo em níveis satisfatórios obrigam as empresas a continuar investindo em propaganda, que, em última análise, sustenta a receita da grande mídia.

Entendendo o trabalho, a educação e a cultura como pilares fundamentais no processo de busca da emancipação e autonomia que caracteriza a condição juvenil, estamos diante da possibilidade – caso a conta da crise recaia sobre a classe trabalhadora – de nos deparar com uma geração de jovens ainda mais marcada pelo pessimismo, em que a falta de horizontes é uma constante e a tendência de condições de vida piores que seus pais ser cada vez mais real.

Todo este cenário nos leva à conclusão de que a juventude ocupa uma posição estratégica na luta pelo socialismo. Primeiramente, como principal afetada tanto pelo modelo neoliberal de reprodução do capital que proporcionou esta crise quanto pelos seus impactos imediatos, este segmento da população é submetido a condições objetivas que podem se desdobrar no interesse em transformar suas próprias realidades.

Em segundo lugar, como alternativas a uma crise sistêmica devem ser igualmente sistêmicas, será necessária a superação das debilidades teóricas e políticas da esquerda e dos socialistas, ainda em defensiva estratégica e impactados pela crise do campo socialista do último quartel do século XX. Não podemos pensar neste desafio sem considerar o papel da juventude hoje e amanhã. Lembremos que a atual geração de jovens militantes foi forjada em um período de duro questionamento do socialismo como alternativa concreta ao capitalismo, rebaixamento programático da maioria da esquerda, perda de referencial teórico entre os socialistas e muita confusão ideológica. O multiculturalismo – ideologia do neoliberalismo – não dei alternativas para a juventude, pregou o fim da história e o fim da possibilidade de construção de uma alternativa. Fragmentou a juventude e dissipou valores individualistas, imediatistas e espontaneístas. Colocou a emacipação individual como única capaz de superar sua atual condição de vida. Superar nossas debilidades exige, portanto, entre outras medidas, uma atenção redobrada à questão geracional e à juventude e que a renovação de quadros se dê sobre as melhores tradições do movimento socialista internacional, do socialismo cientifico e no calor das lutas sociais.

Soma-se a questão da juventude, a posição estratégica ocupada pela América Latina no cenário mundial, que se deve, sobremaneira, ao acúmulo de forças político, social e institucional que a esquerda obteve no último período, como resultado das fortes lutas antiimperialistas e anti-neoliberais. Concretamente, este avanço possibilitou a indução, em alguns países, de modelos de desenvolvimento das forças produtivas distinto do tipo neoliberal. Ocorre que, apesar da crise recolocar no horizonte estratégico a ruptura como caminho ao socialismo, essa posição inédita que a esquerda latino-americana ocupa não confere, de imediato, aos socialistas a capacidade de apresentar e implementar alternativas sistêmicas ao capitalismo.

A integração entre os povos, nações e Estados latino-americanos se coloca como pilar fundamental tanto para o enfrentamento imediato à crise econômica quanto para a construção de uma nova arquitetura da ordem internacional que não se limite a uma recomposição neokeynesiana do capitalismo, mas se paute por construir um novo modo de produção orientado pelo atendimento das necessidades humanas, que respeite os limites e os recursos naturais do planeta e de defesa da soberania dos povos e nações.

Para cumprir com esta tarefa, é de grande contribuição a participação ativa da juventude como atores políticos. Pensar e refletir sobre o papel das juventudes latino-americanas no processo de integração continental e construção de alternativas à crise internacional é o principal desafio que se coloca para os movimentos sociais, partidos políticos e governos progressistas e de esquerda da região.

Ao apontar a realização do I Encontro da Juventude do Foro de São Paulo, em agosto, na Cidade do México, os partidos de esquerda latino-americanos acertam e abrem a possibilidade para que a posição estratégica que os jovens ocupam no tabuleiro possa ser aproveitada na construção do socialismo frente a tantos desafios e adversidades.

Sobretudo, o período de crise se destaca pela abertura de possibilidades e oportunidades. Se é certo que não podemos falar de juventude como sinônimo de novidade, tampouco poderemos construir uma nova sociedade sem a juventude.

 

 Rodrigo Cesar é coordenador de relações internacionais da JPT

Ticiana Álvares é diretora de solidariedade internacional da UJS




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