segunda-feira, 31 de agosto de 2009

REGULAMENTAÇÃO DO PRÉ-SAL NÃO PODE DEIXAR BRASIL NA CONTRAMÃO DOS GRANDES PRODUTORES DE PETRÓLEO

http://corecon-rj.blogspot.com/2009/08/monitor-mercantil_31.html

Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Monitor Mercantil

Lá fora, 80% ficam com o Estado

O ex-deputado federal Ricardo Maranhão, conselheiro da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), identifica progressos no projeto de exploração do pré-sal, que será apresentado na próxima semana pelo presidente Lula, mas considera que o marco regulatório brasileiro ainda "bastante medíocre".
Em todos os países do Oriente Médio e do Mar do Norte, a União fica com pelo menos 80% da receita do petróleo extraído, segundo Maranhão, que foi deputado constituinte em 1988.
"A Constituição identificava as figuras da empresa brasileira e da estrangeira, mas depois criaram a chamada empresa brasileira de capital estrangeiro, com status jurídico igual ao da Petrobras, o que é um absurdo", critica Maranhão, observando que essas empresas estrangeiras podem, inclusive, obter financiamento no BNDES.
"Desconheço que exista algum país que dê tratamento igual a empresas de capital estrangeiro. Nos EUA, qualquer gota de petróleo exportado precisa antes da autorização expressa do presidente da República, através de decreto", comparou.
Já no Brasil, o estrangeiro é isento de pagar impostos quando aplica na bolsa: "O Brasil hoje é um verdadeiro paraíso fiscal. Isso sem falar na fraude nas remessas internacionais. Uma montadora brasileira pode fazer empréstimo junto à matriz com taxa de juros bem "salgada" como forma de remeter divisas. Isto sem falar em superfaturamento. Getúlio Vargas já divulgava isso na Carta Testamento que deixou."
Como pontos positivos do marco regulatório Maranhão destaca a definição da Petrobras como única operadora: "A Petrobras vai procurar maximizar o conteúdo nacional na exploração e terá participação mínima de 30%", disse, prevendo que o país vai ditar o ritmo da exploração das reservas.
"A partir da nova regulamentação, o petróleo será propriedade da União. No México, houve deterioração da relação reserva-produção. Na Argentina e na Indonésia também, porque o país não ditava o ritmo da extração de petróleo. A Indonésia, inclusive, deixou de fazer parte da Opep."
Segundo o conselheiro da Aepet, há projeções mostrando que, controlando o ritmo da extração, as reservas brasileiras de petróleo poderão durar até 150 anos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

CONVOCAÇÃO DA 1ª CONFERÊNCIA ESTADUAL DE COMUNICAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

DECRETO Nº 42.003 DE 25 DE AGOSTO DE 2009

DISPÕE SOBRE A CONVOCAÇÃO DA 1ª CONFERÊNCIA ESTADUAL DE COMUNICAÇÃO DO RIO DE JANEIRO - CONECOM/RJ E DÁ OUTRAS
PROVIDÊNCIAS.


O GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, no uso de suas atribuições constitucionais e legais, tendo em vista o disposto no Decreto Federal de 16 de abril de 2009, publicado no Diário Oficial da União de 17.04.2009, e o que consta do Processo nº E-12/601583/2009, DECRETA:


Art. 1º - Fica convocada a 1ª Conferência Estadual de Comunicação do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ, a realizar-se no Rio de Janeiro, no período de 30 de outubro a 01 de novembro de 2009, sob a coordenação da Subsecretaria de Comunicação Social da Secretaria de Estado da Casa Civil.


§ 1° - A 1ª Conferência Estadual de Comunicação do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ será Presidida pelo Subsecretário de Comunicação Social da Secretaria de Estado da Casa Civil e em eventuais impedimentos por representante por ele indicado.


§ 2° - A 1ª Conferência Estadual de Comunicação do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ contará com a participação de delegados representantes da Sociedade Civil, eleitos nas Conferências Regionais, bem como de delegados representantes do Poder Público.


Art. 2º - A Comissão Organizadora da 1ª Conferência Estadual de Comunicação do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ será instituída através de Portaria do Subsecretário de Comunicação Social da Secretaria de Estado da Casa Civil, sendo composta por representantes da Sociedade Civil e do Poder Público, tendo como finalidade a elaboração de seu Regimento.


Parágrafo Único - O Secretário de Estado Chefe da Casa Civil, mediante Resolução, editará o Regimento da 1ª Conferência Estadual de Comunicação do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ que disporá sobre a organização e o funcionamento da Conferência nas etapas regionais, inclusive sobre o processo democrático de escolha de seus delegados e demais deliberações.


Art. 3º - A organização e logística necessárias à realização da 1ª Conferência Estadual de Comunicação do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ ficarão a cargo da Subsecretaria de Comunicação Social da Secretaria de Estado da Casa Civil, que contará com a colaboração da Comissão Organizadora instituída nos termos do disposto do caput do Art. 2º deste Decreto.


Art. 4º - As despesas com a realização da 1ª Conferência Estadual de Comunicação
do Rio de Janeiro - CONECOM/RJ correrão à conta de recursos orçamentários da Secretaria de Estado da Casa Civil.


Art. 5º - Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação.


Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2009
SÉRGIO CABRAL

"A única coisa que temos a dizer é: Todo o poder aos SOVIETS!".

Tirai vossas mãos deste poder, vossas mãos tingidas com o sangue dos mártires da liberdade que lutaram contra os guardas brancos,

latifundiários e a burguesia.

Izvestia de Kronstadt nº 6, 7 de março 1921

Helbson de Avila

Coletivo Estadual Combate ao Racismo PT-RJ

www.reconquistaranegritude.blogspot.com

h.avila@hotmail.com

Skype: negri_tude

(24)8818-9278




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quarta-feira, 19 de agosto de 2009


Nosso racismo é um crime perfeito

Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria [Terça-Feira, 18 de Agosto de 2009 às 15:15hs]

Fórum - O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?


Kabengele - Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como "nossos negros", é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.


Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?


Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso.


Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul.. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum - Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...


Kabengele - Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?

Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande.. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA..

Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.


Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.

Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?


Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.

Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?


Kabengele - É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.


E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...

Kabengele - O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.


Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o "preconceito de ter preconceito de ter preconceito". O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar".. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum - O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.

Kebengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.


Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

Fórum - É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: "por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco", como se fosse a mesma coisa.

Kabengele - É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

Fórum - O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
Kabengele - Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?

Fórum - Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?

Kabengele - Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.

Fórum - Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?

Kabengele - O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.

Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?
Kabengele - A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial.. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto. Nas bancas.

Camila Souza Ramos e Glauco Faria





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quinta-feira, 13 de agosto de 2009


XI ENCONTRO DE PASTORAL AFROAMERICANO
MENSAGEM FINAL

Os(as) participantes no XI Encontro de Pastoral Afroamericano (XI EPA), realizado na cidade de Panamà, de 3 a 7 de agosto de 2009, com a participação de países da América Latina e Caribe (Mèxico, Honduras, Nicaragua, Costa Rica, Panamá, Colombia, Venezuela, Haiti, Equador, Perù, Brasil e Uruguay), reafirmamos o compromisso histórico iniciado em 1980, gestado pelas Igrejas locais de Buenaventura (Colombia) e Esmeraldas (Equador).

Durante estes 29 anos, caminhamos como povo negro, percorrendo espaços e avançando na formação de equipes pastorais nacionais, chamadas a dar respostas sobre a inculturação do evangelho nos diferentes contextos sociais do nosso povo.

Iluminados pelos EPAs precedentes, nestes 29 anos, vivenciamos a valorização dos saberes tradicionais dos nossos ancestrais e a contribuição das juventudes, a luta contra o racismo e a discriminacao racial, o papel da mulher nos diferentes espaços da sociedade.

Com muita firmeza acentua-se a expressão "globalizemos a solidariedade" e, em resposta, lança-se a ideia da contribuição de l dólar (um dólar) por participante, como sinal de que devemos fazer em todos os EPAs, para continuar o "Fundo de Solidariedade da Pastoral Afrocontinental".
A Conferência de Aparecida foi marcante e deve ser o tema inspirador para o processo da Pastoral Afrocontinental, assim como terá importância na planificação de nossas metas e sonhos traçados.

Cada EPA, tem-se convertido num caminho firme e indelével, que visibiliza nossas metas:
fortalecimento da auto estima e identidade;
acolhida, resposta e compromisso de cada país sede do EPA;
motivacao no trabalho de pesquisa e de produção de materiais pertinentes à realidade local, com projeção latinoamericana, em interação com as novas tecnologías e os processos etnoeducativos;
que se torne realidade a articulação da Pastoral Afroamericana com os movimentos sociais, criando espacos formativos que incidam nas políticas pùblicas, em cada um dos países;
a corporeidade, a alegria, o colorido e a criatividade devem estar presentes na espiritualidade afroamericana e celebradas na liturgia catòlica.

Foi significativa a presença participativa dos Bispos comprometidos com a causa afrocontinental, como também o acompanhamento do CELAM.

Por tudo isso, à luz de Aparecida, reafirmamos nosso compromisso de assumir e tornar realidade a Pastoral Afroamericana em nossos respectivos países; gerando sinais visíveis de solidariedade que dignifiquem a vida e a condição dos nossos povos, iluminados por um Deus, que assume e potencia nosso ser de mulheres e homens afroamericanos.

Os participantes do XI EPA no Panamá.
Leci Brandão ressalta honra de fazer parte do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR)

"Eu me sinto honrada", disse a cantora Leci Brandão ao tomar posse nesta terça-feira (11 de agosto) como integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR). Ela ocupou uma das três vagas destinadas a cidadãos de notório reconhecimento das relações raciais. É a segunda vez que a cantora ocupa a vaga de conselheira do CNPIR. Leci Brandão aproveitou a ocasião para ressaltar que sempre lutou em favor das populações historicamente excluídas.

"Canto por todas as encrencas brasileiras", completou sorrindo. Também tomaram posse nesta terça-feira, como suplente ou titular, outros 12 conselheiros. São eles: Ualiid Hussen Ali Mohd Rabah, da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal); Carlos Roberto de Oliveira e Marcelo Braga Edmundo, da Central de Movimentos Populares (CMP); Eduardo Zylberstajn, da Confederação Israelita do Brasil (Conib); Ieda Leal de Souza, da Central Única dos Trabalhadores (CUT); Rui Leandro dos Santos e Givânia Maria Da Silva, ambos do Ministério do Desenvolvimento Agrário; Jorge Luiz Quadros, do Ministério da Justiça; Gláucia Silveira Gauch, do Ministério das Relações Exteriores; Andréa Costa Magnavita e Rafael Luiz Giacomin, do Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão, e Maria do Carmo Rebouças da Cruz, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, da Presidência da República. No total, o CNPIR possui 44 integrantes: 22 representantes de órgãos públicos, 19 da sociedade civil e três cidadãos de notório conhecimento. A composição atual do Conselho é a primeira formada por meio de chamada pública, o que garante transparência ao processo. A principal missão do CNPIR, órgão integrante da estrutura básica da SEPPIR, é elaborar propostas de políticas de promoção da igualdade racial, com ênfase na população negra, e combater o racismo, o preconceito e a discriminação, por meio de ações para reduzir as desigualdades raciais.Moções - A posse ocorreu em Brasília durante a 21ª Reunião Ordinária do CNPIR. Antes, o CNPIR analisou todas as 84 moções apresentadas durante a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (II CONAPIR). O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, que presidiu o encontro, destacou que os participantes da II CONAPIR, realizada no fim de junho, discutiram e votaram todas as propostas apresentadas. As moções, lembrou Edson Santos, tratam de assuntos que vão além da pauta da Conferência. A tarefa conferida aos conselheiros foi dada pela plenária final da II CONAPIR. Das 84 moções, apenas oito receberam destaques.

O Comitê de Articulação e Monitoramento do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Planapir) e o Estatuto da Igualdade Racial estão na pauta do segundo dia do encontro, que termina nesta quarta-feira. O Plano foi aprovado por meio do Decreto nº 6.872, de 4 de junho deste ano. A proposta de criação do Estatuto tramita no Congresso Nacional, com previsão de ser votada no dia 19 de agosto. Ainda durante o evento serão apresentados uma pesquisa sobre diversidade nas escolas e um balanço da II CONAPIR.

Coordenação de Comunicação Social
Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
Presidência da RepúblicaEsplanada dos Ministérios, Bloco A, 9º andar - 70.054-906 - Brasília (DF)Telefone: (61) 3411-3659
Nota de apoio ao Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães da UnB em repúdio à Ação do DEM (Democratas) contra o sistema de cotas raciais da UnB

O Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vem por meio desta nota prestar apoio, solidariedade e informar que se soma ao Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães da Universidade de Brasília, engrossando o coro em repudio a ação promovida pelo Democratas contra o sistema de cotas raciais na Universidade de Brasília.

Tendo em vista do ocorrido no dia 20 de julho, onde o partido (DEM), por meio de sua advogada Roberta Kaufmann, impetrou uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF, demandando a suspensão liminar do sistema de cotas raciais da UnB e do resultado do Vestibular do segundo semestre de 2009. Assim, consideramos que essa medida vem de forma antidemocrática querer acabar com a política de Ação afirmativa pioneira da UnB de democratização do acesso ao espaço universitário, que em nosso entender é da mais alta relevância.

Numa tentativa clara, tenta-se mudar o foco da argumentação, colocando que em termos biológicos não existem raças e que, portanto, não pode haver racismo no país, descrevendo um país muito diferente do Brasil real, onde viveríamos em uma sociedade plural, plena e de igualdade. A partir da ação movida pelo DEM que questiona a UnB por “institucionalizar o racismo” e por lançar as bases de um “Estado racializado” e que as políticas de ação afirmativa são problemáticas quando têm o recorte racial. Assim, Kaufmann se contradiz ao considerar que não quer discutir a existência de racismo, preconceito ou discriminação no Brasil, e logo mais afirma que: “ninguém é excluído pelo simples fato de ser negro” (p. 27), ou seja, categoricamente a advogada afirma que não existe racismo no país. Tendo em vista esse tipo de argumentação evasiva, nós, lutadores em favor das cotas, repudiamos os argumentos baseados na genética humana para afirmar que somos todos iguais, quando na verdade sabemos que o racismo brasileiro é fenotípico e permanece arraigado em nossa sociedade, mesmo que velado, o racismo brasileiro se expressa nos estereótipos sociais e nas ações de poder e segregação.

Diferentemente do que afirma a advogada, o quadro do Brasil é o de uma grande desigualdade social e racial (tendo em vista que pobreza e negritude possuem uma forte interligação na realidade histórica brasileira muitas vezes não podendo ser dissociados, porem necessitando serem percebidos em suas especificidades) . Percebemos a baixa representatividade dos negros em espaços de poder, assim como nas universidades. Se é mínima a parcela da população que têm acesso à educação superior, menos ainda são os negros que chegam à universidade, sendo em torno de 2%. Em 2003 a UnB tomou uma decisão muito importante nesse sentido, onde o CEPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão) aprovou o sistema de cotas, reservando 20% das vagas a estudantes que se autodeclaram negros e afro-descendentes. Essa política vem acima de tudo, para mudar a realidade da universidade, quebrar o monocromatismo branco e escurecê-las, popularizando o acesso e a produção do conhecimento dentro da instituição. Foi com essa política que a UnB e outras universidades do país, como a nossa, a UFRGS, começaram a mudar. Com o sistema de cotas, mais negros começaram a entrar e a influenciar os rumos do ensino e pesquisa, contribuindo para uma formação social mais plural e plena da universidade. Em nosso caso, as cotas indígenas também foram aplicadas.

Foi com o sistema de cotas que se criou uma real possibilidade de empoderamento de uma significativa parcela da população que historicamente foi e é discriminada e excluída de âmbitos sempre pertencentes à elite branca culta do Brasil, podendo assim, dizer que além do corte racial, as cotas trazem em seu bojo fortemente o corte de classe, o que irrita a classe sempre privilegiada pelo acesso as IES públicas do país. Hoje ainda a universidade é um dos espaços predominados pela elite branca, e as cotas vêm para romper com esse arranjo, democratizando e popularizando, mesmo que em grau ainda mínimo, as universidades. Temos ciência que a medida é ainda pouca, pois clama por políticas muito mais efetivas, como além de acesso, a possibilidade de permanência dessas camadas mais carentes, contudo, temos convicção em considerar um avanço muito significativo a implementação das reservas de vagas, e por ela continuaremos lutando, por sua efetiva aplicação, e contra os sistemáticos ataques.

A experiência das cotas é o caminho inverso ao do “racismo institucionalizado” . Após a implementação do sistema de cotas em diversas IES do país, a luta contra o racismo se intensificou em quase todos os espaços das universidades, sendo que os vários movimentos sociais que se articularam desde então sempre contribuíram em muito para uma maior proximidade da universidade com a sociedade e para a minimização da segregação social e racial.. Assim, política de cotas é um marco na UnB, como foi aqui na UFRGS. Ela sinaliza a institucionalização do processo da luta pela igualdade racial e social em nosso país.

Em vários momentos os críticos ao sistema de cotas questionam a igualdade, a partir do texto da constituição federal. Porém questionamos como é possível falar de igualdade quando brancos e negros partem de pontos tão distintos em nossa sociedade. De que igualdade se fala? De acesso? O âmbito econômico não influi no acesso? Basta vontade? Além do aspecto econômico, a cor da pele de alguém não conta ao ser julgado? Para que possamos concretizar o preceito constituinte de igualdade é central avançar em políticas públicas. As ações afirmativas são instrumentos com o claro objetivo de mudar uma realidade e afirmar a presença de um grupo socialmente minoritário. Sabemos dos limites das medidas paliativas, mas não abrimos mão de sua reivindicação para que tencionemos nas contradições mais urgentes existentes e permanentes em nossa sociedade. Não se trata de culpar os brancos pela escravidão, como a advogada leva a crer, mas sim o de reforçar o negro como parte integrante e ativa de nossa sociedade.

Assim como o DCE da UnB, entendemos como sendo de importante valia o papel democratizante que as cotas possuem, prestamos apoio ao DCE nessa luta em defesa das cotas, e na manifestação de repúdio ao DEM. Também reiteramos que a formulação e a implementação de políticas de ação afirmativa são centrais para a consolidação democrática do país, sendo exatamente por isso sempre alvo de ações de grupos - e partidos - conservadores que não querem o empoderamento popular. Pela universidade publica popular, gratuita e de qualidade que lutamos, consideramos que o papel da universidade é formular constantemente políticas que visem soluções para os problemas de nossa sociedade. Esse papel tem que ser garantido por todos e a única forma de garantir que isso não se encerre é com luta! Ratificamos e reforçamos a conclamação a todos os movimentos sociais a se manifestarem e se engajarem na luta em defesa de uma sociedade mais justa, plural e democrática, a partir desse ataque vindo dos Democratas contra as cotas raciais na UnB. Somente com uma ampla organização, articulação e percepção da importância de todos lutadores sociais que acreditam na popularização das IES do Brasil, será possível a real garantia da aplicação, manutenção e melhorias das Ações Afirmativas, mais especificamente as medidas de reservas de vagas nas Universidades, que garantiremos a grande vitória em derrotar atitudes como essa tomada pelo Democratas.

Não à ação do Democratas!
Em defesa do Sistema de Cotas da UnB e em todas IES do Brasil!

Porto Alegre, 24 de agosto de 2009Diretório Central Universidade Federal do Rio Grande do SulGestão 2008/09 - "DCE Sempre em frente! UFRGS pra que(m) te quero?"

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Extermínio da Juventude Negra brasileira

 

Nós, negras e negros, reunidos/as na Assembléia Nacional do Congresso de Negras e Negros do Brasil – CONNEB, nos dias 23 a 26 de julho de 2009, em Porto Alegre/RS, reafirmamos que a luta contra o extermínio da juventude negra é essencial no processo de enfrentamento ao racismo.

 

Pesquisa divulgada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, UNICEF e Observatórios de Favelas, na última terça-feira (21/07), afirma que mais de 33.5 mil jovens deverão ser executados de 2006 a 2012. Os estudos ainda apontam que, os jovens negros apresentam risco quase três vezes maior de serem executados em comparação aos brancos.

 

Essa situação, infelizmente, há tempos vem sendo denunciada pelo movimento social negro em nosso país. O extermínio vivido pela nossa juventude é fruto de um modelo de Estado racista que não dá conta de resolver os problemas estruturais secularmente sofridos pelo povo negro, sobretudo pela juventude que amarga os piores indicadores sociais e segue alijada em nossa sociedade.

 

Não podemos mais admitir que o sangue de jovens negros/as continue jorrando no chão das periferias brasileiras. Não podemos mais aceitar que a lógica do modelo econômico e do racismo determine a morte de nossos irmãos e irmãs em todos os cantos do país. É preciso dar uma basta!

 

Por isso, reafirmamos nossa luta contra o extermínio da juventude negra e convocamos os setores comprometidos com a superação do racismo a se juntarem conosco na busca de um presente e um futuro melhor para o nosso povo.

 

Porto Alegre/RS, 26 de julho de 2009.




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