sábado, 10 de outubro de 2009

Moeda e crédito no ciclo econômico

Núcleo de Educação Popular - 13 de Maio São Paulo, SP.
CRÍTICA SEMANAL DA ECONOMIA
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ESPECIAL: ANO XXIII. nº 991/992;
4ª semana de Setembro e 1ª de outubro/2009.
JOSÉ MARTINS.

O grande bode da economia dos Estados Unidos é o desemprego que não pára de aumentar. Isso pode levar a uma mudança de expectativa dos capitalistas e seus economistas de que “o pior já passou”. Na manhã de 2 de outubro 2009 as agências de notícias internacionais anunciam essas boas notícias: “Empregadores cortaram mais empregos no último mês do que os previsto e a taxa de desemprego subiu para o nível mais elevado em 26 anos, colocando em questão a sustentabilidade da recuperação econômica. A taxa de desemprego subiu para 9.8%, a maior desde 1983, depois de 9.7% em Agosto, divulgou hoje o Departamento do Trabalho em Washington. Os postos de trabalho caíram 263,000, na seqüência de queda revisada de 201,000 do mês anterior. O presidente do Federal Reserve Ben S. Bernanke declarou ontem que a expansão pode não ser forte o suficiente para derrubar „substancialmente‟ o desemprego, indicando que o banco central vai diminuir a drenagem dos trilhões de dólares injetados na economia”.¹
Mas o que o banco central dos EUA tem a ver com o desemprego dos trabalhadores? Isso não é um problema a ser resolvido pelos Ministérios do Trabalho, da Economia, da Indústria e Comércio, etc.? Bernanke não deveria se preocupar mais com a moeda e o crédito do que com coisas que atingem mais diretamente o trabalho? Trilhando os sinuosos caminhos da economia real deste radiante início de Outubro podemos entender melhor essas preocupações mais concretas do guardião-mor da moeda e do crédito do império.OUTROS BODES – Na outra ponta da produção e do emprego amarrados pelo fio que se eleva até a superfície do mercado capitalista na forma mais visível e concreta da lei do valor trabalho bóiam outros bodes ainda mais assustadores para os capitalistas. Se o desemprego do trabalho dói na carne dos trabalhadores, as perdas e falências do capital doem no bolso dos capitalistas e outros rentistas. O problema é a situação do sistema bancário que também não pára de se deteriorar. Vejam esta didática descrição:“Perdas de grandes bancos dos EUA triplicam para US$53 bi. Autoridades reguladoras dos Estados Unidos afirmaram que o nível de perdas com empréstimos sindicalizados pelos bancos e outras instituições financeiras triplicou para 53 bilhões de dólares em 2009, devido aos ruins padrões de subscrição e contínua fraqueza das condições econômicas. Segundo a revisão de 2009 do Programa Nacional de Crédito Compartilhado (SNC, na sigla em inglês), um relatório anual interagências publicado na quinta-feira, a qualidade do crédito se deteriorou a níveis recordes com respeito aos grandes empréstimos e compromissos de empréstimos. Segundo o relatório, ativos classificados com 'menção especial', 'abaixo do padrão', 'duvidoso' e 'prejuízo' chegou a 642 bilhões de dólares, o que representa 22,3 por cento do portfólio da SNC, contra 13,4 por cento um ano atrás.”²
Segundo outro relatório, da Mortgage Bankers Association, de Agosto 2009, a falta de pagamentos dos estadunidenses às suas prestações de empréstimos imobiliários (hipotecas) alcançou ritmo recorde no segundo trimestre de 2009, com os calotes [delinquencies] se elevando para 9,24 por cento. De modo geral, os empréstimos impagáveis do sistema bancário dos EUA atingem atualmente o maior nível dos últimos 18 anos, na esteira de dúvidas crescentes quanto a recuperação da economia. Há uma quantidade imprevisível de grandes e pequenos bancos que já deveriam ter fechado as portas. Mas não se sabe por que razão o Federal Deposit Insurance Corp. (FDIC) – agência que monitora a saúde e o funcionamento legal dos bancos, não acelera as notificações de falência e fechamento dessas “instituições zumbi”, como são apelidadas no mercado.
Apenas para ficar no exemplo de outro grande banco nesta situação, o CIT Group Inc. (não confundir com o Citgroup, que já está com a maior parte das suas ações nas mãos do governo estadunidense), um conhecido banco com sede em Nova York, com 101 anos de existência, ainda procurava desesperadamente, na manhã de sexta-feira, 2 de Outubro, acertar com seus credores um corte de pelo menos US$ 5,7 bilhões da sua dívida e pedia socorro para evitar o colapso e talvez voltar a ter lucro depois de nove trimestres de prejuízos.³
ARMADILHA – Uma conseqüência importante dessa situação dos bancos é que os mecanismos de créditos e empréstimos privados continuam emperrados. Os bancos não emprestam para empresas e consumidores individuais com medo de calotes. Esse travamento do crédito obscurece perigosamente a possibilidade de superação da crise. Continua indefinida a forma como ocorrerá o fechamento do ciclo econômico nos dois últimos trimestres do ano.
Desde Março 2009 o Fed (banco central EUA) implantou um programa de emergência para restaurar o mercado de empréstimos, que ficou conhecido como “sistema bancário fantasma”. Não funcionou. Embora estejamos frente a um problema complexo, na superfície do mercado ele se apresenta de maneira muito simples: se os empréstimos bancários não voltam a fluir para a produção e para o consumo não se pode pensar em recuperação da economia. O Fed está de acordo com isso: “Amanhã, no encerramento de dois dias de reunião, O Federal Open Market Committee vai provavelmente manter seu diagnóstico de que o “aperto” do crédito bancário impede o crescimento. Os empréstimos encolheram por cinco semanas seguidas, uma queda que em parte reflete as ordens do Fed aos bancos para elevar o capital e reforçar as exigências para empréstimos. O fracasso em restaurar o fluxo de crédito bancário leva ao risco de que a recuperação econômica será mais lenta do que o previsto pelo Fed, ou então que os EUA caiam em outra recessão. Isto faz com que o mais provável é que o Fed mantenha taxa básica de juros próxima de zero por um longo período”.
A economia reguladora do mercado mundial continua imersa na armadilha da liquidez. Muito estoque de moeda e de crédito nas esferas financeiras, mas fraquíssimo fluxo de capital na esfera da produção. O dinheiro não se metamorfoseia em capital-dinheiro. Sem essa passagem histórica não se passa da produção de mercadoria para a produção de capital. É isso que acontece agora nos EUA: muita mercadoria, mas pouco capital. Já tratamos detalhadamente em boletins anteriores da natureza desta temida armadilha da liquidez. O que importa destacar agora é que o Fed não está a elevar a taxa básica de juros por duas razões principais. Primeiro, porque seu presidente é um economista inteligente. Sabe que uma minúscula elevação agora representaria a imbecilidade de empurrar de vez para o precipício a demanda agregada que ainda mantém a economia funcionando (em ponto morto, que seja) e, conseqüentemente, a derrocada completa da produção industrial. Resultado? Crise catastrófica. Existem, repetimos, alguns economistas inteligentes (muito poucos) como Ben Bernanke, presidente do Fed, que jamais fariam essa bobagem de elevar neste momento a taxa de juros, como exigem os monetaristas de uma nota só, que não sabem ver outra coisa senão o “perigo da inflação”.DEFLAÇÃO OU HIPERINFLAÇÃO? – Outra razão de se manter a taxa de juros próxima de zero diz respeito a um problema teórico e ao mesmo tempo prático. Por que tanta moeda e tanto crédito não se manifestam na hiperinflação? Não esperem uma resposta daquele monte de economistas monetaristas e outros liberais, que receitam a imediata elevação da taxa de juros e corte de despesas públicas. Acontece que deflação e inflação – referindo-se aqui à inflação monetária e não à do preço de produção – não são meros reflexos da variação quantitativa da moeda e dos meios de pagamentos. São antes de tudo elementos cíclicos e dependentes da produção e do emprego do capital; dependem, portanto, de como se desenrola concretamente o ciclo econômico. Deve-se observar que não é só o desemprego do trabalho que assola a economia reguladora do mercado mundial. Existe também seu irmão gêmeo, o desemprego do capital. Neste momento há uma colossal ociosidade na produção industrial, como nunca houve desde os anos 1930. No mês de agosto/2009, a utilização da capacidade nos ramos de bens duráveis da indústria dos EUA bateu nos 60%. Isso é o que chamamos acima de “precipício”. Não é uma mera expressão: é um grau de desemprego da capacidade instalada que determina um processo deflacionário (de preços e de lucros) na superfície do mercado. Em resumo, um processo deflacionário persistirá necessariamente –mesmo com oceanos de moeda-papel injetados no mercado – enquanto a produção e a taxa geral de lucro da economia estiverem em queda. No momento há uma queda também fulminante da produção industrial ( cerca de 15%) desde o início da crise, no primeiro trimestre de 2008.
Simultaneamente à deflação, o latente processo hiperinflacionário só ocorrerá nos EUA, de forma parecida como ocorreu na Alemanha dos anos 1920, com a explosão do crédito público. Mas isso é apenas uma possibilidade virtual Essa explosão (e o simultâneo derretimento da moeda nacional) ocorreria como uma das principais manifestações da crise geral. Isso, neste momento, ainda é apenas uma tênue (embora real) possibilidade.
Tratamos desta possibilidade nos boletins mais recentes. Deve-se aguardar os dados que chegam da produção real neste terceiro e quarto trimestres para atualizar esse quadro. Mas já se pode entender melhor aquela dúvida anterior sobre por que o banco central dos EUA se preocupa com a situação do emprego e desemprego dos trabalhadores, do mesmo modo que com o nível da produção da massa de valor agregado – produção industrial. Basta não esquecer que a moeda continua sendo a forma do valor par excelence. É por isso que o nível de emprego (ou de desemprego) da força de trabalho – única fonte do valor agregado na produção – tem que ser acompanhado de perto pelos guardiões da moeda e do capital.
DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL – As enormes massas de papel moeda e de crédito continuam teimosamente “empoçadas” nas carteiras dos bancos e outras instituições financeiras. Mas se não há como transformar o dinheiro em capital-dinheiro o que fazer com ele? Para os capitalistas é muito simples, basta transformá-lo em capital fictício. Mas isso não seria uma repetição (agora ampliada) das bolhas que levaram à atual crise financeira? Não seria o mesmo que antes de se curar da ressaca cair de cabeça em nova orgia?
Não é hora de sermões morais, nos responderiam os espertos homens do mercado. Esses capitalistas são indivíduos práticos, vacinados contra a perigosa tentação de pensar antes e agir depois. Organização e voluntarismo é a sua cartilha. Se eles resolvessem pensar além das oportunidades de curtíssimo prazo seriam rapidamente batidos e eliminados do mercado por outros colegas muito mais preparados para a tarefa de acumular capital. Não seriam capitalistas.

É por isso que não podem se preocupar também com problemas muito práticos, mas muito gerais, como, por exemplo, a diferença entre dinheiro produtor de juros e rendas (capital financeiro) e capital-dinheiro produtor de lucro (capital industrial). Na sua economia popular de Almanaque Abril o que é juro eles chamam de lucro, o que é lucro eles chamam de renda, o que é renda eles chamam de salário e por aí afora. É claro que essa também é a tendência dominante dos seus economistas (com raríssimas exceções) e dos seus governantes (sem exceções).
BOLHA RELÂMPAGO – Nessa lambança teórica e com a consciência livre para uma insana especulação com o oceano de moeda que jorram nos últimos meses dos bancos centrais (de Nova York a Pequim) os capitalistas ficam muito felizes e eufóricos com os enormes “lucros” auferidos nos últimos seis meses com seus “investimentos” nos mercados financeiros – ações, commodities, derivativos etc.
Crise? Que crise? O sistema bancário real se alimenta na fonte inesgotável de moeda do “sistema bancário fantasma” e o povo do mercado decreta que “o pior já passou”. Perdas reais com os calotes, de um lado, e lucros especulativos, de outro, caminham de mãos dadas. Mesmo grandes bancos a beira da falência e semi-estatizados (Citgroup, Goldman Sachs, etc.) voltaram a apresentar “grandes lucros”. E esses “lucros” ocorrem da maneira mais temerária possível:
“Os bancos comerciais americanos divulgaram ganhos de US$ 5,2 bilhões no segundo trimestre em operações com derivativos, aplicações especulativas que resultaram em prejuízo para essas instituições na crise financeira que se agravou a partir de setembro do ano passado. Os derivativos foram apontados como um dos fatores responsáveis pela crise. Na época, grandes empresas brasileiras apresentaram perdas gigantescas em operações com esses instrumentos financeiros, e a conclusão de analistas era que não havia informação suficiente para os acionistas identificarem os riscos embutidos nas operações. Trata-se de um mercado altamente concentrado... Cinco instituições financeiras de grande porte representam 97% do volume de derivativos: JPMorgan Chase, Goldman Sachs, Bank of America, Citigroup e Wells Fargo. A lista reúne alguns dos bancos que mais receberam ajuda do governo americano durante a crise.”
Essa ilusão deve durar muito menos tempo do que as bolhas passadas. É uma bolha relâmpago. Já começa a se formar no mercado a convicção de que essa bolha sofrerá uma correção bastante forte nas próximas semanas. Isso ocorrerá na esteira de divulgação de novos e frustrantes anúncios de prejuízos generalizados nas principais empresas industriais. Noticiou-se nesta última semana que os analistas de Wall Street esperam que os lucros das 500 maiores empresas dos EUA, listadas no índice S&P 500, da bolsa de Nova York, tenham caído 22 por cento em média neste 3º trimestre encerrado em 30 de Setembro. Aproxima-se o momento do ciclo fechar as cortinas e encerrar espetáculo.

1 Bloomberg.com, 2/Out/2009.2 Reuters/Estadão – Perdas de Grandes Bancos dos EUA Triplicam Para US$ 53 bi WWW.estadao.com.br/economia 25/09/2009.3 Vide “CIT Pledges to Cut $5.7 Billion of Debt in Swap Offer” in http://www.bloomberg.com/ 2/10/09.4 Bloomberg News – “Fed Growth Effort May Be Undermined by ‘Tight’ Credit”, 22/Set/20095 Janaina Lage – “Banco nos EUA Lucra Com Operação de Risco” – in Folha de S. Paulo, 29/Set./2009Para receber semanalmente análises econômicas como esta que você acabou de ler, assine e divulgue o boletim CRÍTICA SEMANAL DA ECONOMIA, do 13 de Maio, Núcleo de Educação Popular, S.Paulo. Em 2009, estamos completando 22 ANOS DE VIDA. Vinte e dois anos informando e educando a classe trabalhadora!Ligue agora para (11) 9235 7060 ou (11) 8201 6059 ou passe um e-mail para criticasemanal@uol.com.br. e faça sua assinatura!

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