quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Salve Geral, salve-se quem puder

Maio de 2006. Estado de São Paulo. Milhares de mães aguardam a chegada de seus filhos, que receberam o indulto para passarem com elas o fim de semana do dia das mães, em suas casas. Lucia, interpretada por Andrea Beltrão, é uma dessas mulheres, e prepara a casa para receber Rafa, seu filho, preso e condenado por homicídio um ano antes, e que cumpre pena no presídio paulista de Tremembé. O que ela não sabe, é que ele, ao se envolver dentro da cadeia com uma das facções criminosas mais poderosas e organizadas do estado, por pedir proteção e alguma condição menos indigna para cumprir sua pena, tinha uma tarefa a cumprir em nome do ‘partido’: era o ‘Salve Geral’.


Os espectadores logo identificam que ‘partido’ é um codinome para o PCC, Primeiro Comando da Capital, e é o autor do sinal, preciso como o nome do filme de Sérgio Rezende, em cartaz nos cinemas de Salvador e de outras cidades brasileiras. Sinal que é também o estopim para o início de rebeliões que de fato aconteceram em 24 penitenciárias de todo o estado, além de uma onda de ataques a delegacias, módulos, ônibus e comércio da capital paulista.


O filme tem como pano de fundo o cotidiano de milhares de mães, mulheres que querem paz e visitam semanalmente seus filhos e maridos que estão nas prisões, não apenas de São Paulo, mas de todo o Brasil. Elas são humilhadas, maltratadas, como se elas mesmas tivessem cometido um crime. Lucia, fragilizada com a perda do marido, 5 anos antes, e com a queda no padrão socioeconômico, tenta reconstruir sua vida – e tirar seu filho da cadeia. Para isso, ela se envolve com Ruiva, advogada do ‘partido’, que adentrou no mundo do crime ao se apaixonar por Chicão, um dos líderes.


Lucia parecia seguir o mesmo caminho quando se deixa levar por um romance tórrido com o Professor, outro dos comandantes, preso num presídio de segurança máxima, distante da capital. O destino, porém, reserva-lhe, no filme, mais uma decepção. Embora sugira toques hollywoodianos, a história dela não é uma ficção. O crime organizado faz vítimas não apenas entre os/as infratores/as, mas entre aqueles/as que os/as cercam. A luta por ‘paz, justiça e liberdade’ – lema do partido, e também do PCC – é uma luta não apenas dos presos, mas também dessas mulheres.


Rafa, no presídio, não tem sorte melhor. Condenado e preso, ele é um jovem revoltado com as condições que a vida lhe reservou e se coloca em situações de risco até que uma delas o conduz a um caminho irreversível. Na cadeia, conhece Xizão, um jovem negro, vindo da periferia e com menos estudo e condições que Rafa. Mas na prisão, todos são iguais, e seguem as mesmas regras de convivência.


O desenrolar do filme é longo – e pesado -, e retrata com cores fortes e reais o cotidiano de quem vive perto, muito perto da violência. Chicão define muito bem esse cotidiano ao dizer, sem qualquer juízo de valor, que ‘a violência é o nosso natural. A gente convive com ela desde criança’. E é essa convivência que vitima principalmente os verdadeiros protagonistas desse filme: eles são jovens, do sexo masculino, agressores e vítimas de um sistema que exclui, que violenta. O mesmo Estado que tira direitos sociais, os substitui com violência. Arma uma cama de gato para a sociedade que deveria proteger. A palavra mais contundente vem da polícia, que após uma negociação com o comando do ‘partido’, revela: ‘a gente acalma os presídios, e vai à forra nas ruas’.


O saldo desse episódio, do outro lado da tela, e contabilizado pelo filme, é de mais de 400 mortos, entre presos e ‘pobres livres’, e também policiais e agentes penitenciários, que acabam transitando entre o papel de algozes e vítimas desse mesmo sistema. A classe média e alta de São Paulo viveu, naquele maio de 2006, dias de horror. Dias que se prolongam, antes e depois dessa data, em todo o Brasil, para milhares de pessoas pobres que vivem à mercê do crime organizado e da violência policial nas periferias das grandes, médias e pequenas cidades. São elas, que verdadeiramente clamam por um ‘salve geral’.

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