sábado, 10 de outubro de 2009

Sobre o neo-ambientalismo liberal

01/10/2009 As restrições de Fernando Gabeira ao marco regulatório do pré-sal exalam o passado de um neoliberalismo desautorizado pela crise de 2008. Pelo que se intui das intervenções do deputado, em recente debate, a segurança ambiental na exploração das novas jazidas seria mais consistente se entregue às mãos (invisíveis) da livre concorrência, e não às da Petrobras. Associar o equilíbrio da sociedade e do planeta aos livres mercados é pura reciclagem do ideário neoclássico ao discurso ardiloso de um neo-ambientalismo liberal ontologicamente fraudulento. O artigo é de Saul Leblon.

Saul Leblon

1. Há verdes que envelhecem antes de dar frutos. Depressa baldeiam do conservacionismo para o conservadorismo.


2. O fato de terem sido ultrapassados eleitoralmente pelo recém criado partido da Esquerda alemã – naquele que foi o palco privilegiado de flerte ambientalista com o figurino da 'renovação política' - evidencia uma expressiva tendência à decrepitude precoce.


3. As colocações do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) no debate "O Futuro do Pré-Sal II", promovido recentemente pelo jornal Estado de São Paulo, com a participação do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, reforçam essa percepção de uma falsa promessa de futuro.

4. As restrições de Gabeira ao marco regulatório do pré-sal exalam o passado de um neoliberalismo desautorizado pela crise de 2008. Desautorizado até mesmo, justiça seja feita, por ambientalistas consequentes que reivindicam planejamento e limites à predação do planeta pelo capital, algo naturalmente improvável sob o regime do vale-tudo dos mercados livres.


5. Mas não para Gabeira. Pelo que se intui das intervenções do deputado nomeado por Serra como seu pé de palanque no Rio, a segurança ambiental na exploração das novas jazidas seria mais consistente se entregue às mãos (invisíveis) da livre concorrência, e não as da Petrobras, indicada como operadora única no novo marco regulatório.


6. Na fabulação desse ambientalismo raso, tudo se passa como se a inexistência do Estado, ou um Estado reduzido ao mínimo, assegurasse aos cidadãos do século XXI - o século de agigantamento da racionalidade mercantil - um modo de vida mais sustentável, ou pelo menos mais seguro.

7. "Se nós temos uma única operadora, e se a operadora tem essa influência enorme no Brasil, como vamos ter ambiente para avançar na legislação ambiental?", questionou Gabeira no debate.


8. A vida fica desconcertante quando apartada da história. O velho deputado perdeu a dimensão impositiva das forças descomunais que regem uma sociedade ordenada pelos meios privados de produção. A privatização do tecido urbano pela especulação imobiliária, por exemplo. Trata-se, é até singelo dizê-lo, de um embrutecedor das condições de vida e de transporte nas asfixiantes concentrações humanas produzidas pela metástase dos livres mercados. A desigualdade aí, fique claro, não é fruto do escapamento desregulado da frota de veículos.


9. A arquitetura da destruição, o ar irrespirável, os rios de esgoto tampouco representam pontos fora da curva produzidos pelos mercados. São, antes, obras-primas da desregulação e da livre concorrência incensada agora por Gabeira.


10. Passada a borracha na história tudo fica verde. Ou sombrio. Em resumo, fica fácil. Assim, a Petrobras, o diesel por ela produzido, torna-se 'o' elemento responsável pela poluição nas grandes cidades brasileiras. Não o esfarelamento do Plano Diretor de SP intentado pela administração Kassab, aliada do serrismo ao qual Gabeira aderiu e para o qual tenta arrastar Marina Silva.


11. A mesma administração Kassab que impermeabiliza marginais e várzeas do Tietê, cortou a merenda nas creches municipais - faz mal comer muito, sapecou o prefeito antes de recuar -; cortou também a varrição de rua na ante-sala do verão....Ah, sim, mas o kassabismo criou a 'Segunda-feira sem carne' e o prefeito demo-ambiental foi de ônibus trabalhar no Dia Mundial sem Carro. Alvíssaras.


Basta isso para saciar o neo-ambientalismo liberal. Ou pelo menos seus expoentes acham que basta isso para iludir docemente a classe média espremida entre as hostilidades crescentes do capitalismo tardio e seus sonhos de vida saudável-estável-confortável-reciclável e outros vels... Basta oferecer-lhe um mote palatável, ademais de coerente com o discurso da oposição a Lula em 2010: a culpa pelo ar podre da capital paulista é da Petrobras. Pronto. Agora vamos todos andar de bicicleta no Parque Ibirapuera.


Claro, sem esquecer a conclusão subliminar, por acaso, a mesma que move as petroleiras e seu lobby demotucano: a Petrobras não deveria ser a única operadora do pré-sal.


12. O simplismo permite a Gabeira ombrear a estatal ao Leviatã hobesiano ungido como antípoda pelo vale-tudo dos mercados, como se apenas as duas opções fossem possíveis. "Nós pedimos, trabalhamos, houve até pedidos na Organização dos Estados Americanos (OEA) e não conseguimos vencer a barreira da Petrobras", afirmou o verde no debate do Estadão.


13. "A Petrobras tem uma situação de força (...) quando entra em uma luta, entra pesado, e, no caso do enxofre, ela entrou pesado', acrescentou.


15. O neo-ambientalismo liberal acolhe todos os que preferem enxergar a sociedade acima dos conflitos históricos, reduzindo-a a uma colisão entre carros e bicicletas; 'bons' e 'maus' zeradores de carbono.


16.A verdade talvez seja mais dura; talvez cobre ações mais cansativas do que pedalar. O problema energético aguçado pelo esgotamento do horizonte fóssil não se origina e não se resolverá apenas na troca de uma fonte por outra. São as formas de viver e de produzir que direcionam o uso e o abuso dos recursos naturais em nosso tempo, sejam eles energia, água ou o composto sintético do tecido usado pelos ciclistas que buscam os parques nos fins de semana.


17. É essa lógica, igualmente, que determina a sustentabilidade no uso do espaço urbano e não leviatãs de vento acenados pelo deputado Gabeira.


18. Associar o equilíbrio da sociedade e do planeta aos livres mercados é pura reciclagem do ideário neoclássico ao discurso ardiloso de um neo- ambientalismo liberal ontologicamente fraudulento.



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