quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os polos políticos na era pós-Lula

do blog do NASSIF03/11/2009 - 11:09

Ontem publiquei uma belíssima análise do Gunter sobre o cenário político pós-Lula (clique aqui).
Vamos continuar a discussão sobre um dos sub-ítens relevantes: de que maneira irá se articular uma oposição ao que se poderia chamar de lulismo.

Grosso modo, são três grupos de temas em torno dos quais podem ser articulados os discursos políticos:

Grupo 1 – Políticas irreversíveis:

1. As políticas sociais includentes.
2. O pacto do desenvolvimento, com ação mais ativa dos bancos públicos e de políticas fiscais e o chamamento dos diversos setores .
3. A manutenção da estabilidade inflacionária e fiscal.
4. A regionalização do desenvolvimento.
5. O biocombustível, como um dos pilares do novo desenho industrial e das inovações tecnológicas.
6. A nova política industrial ancorada no pré-sal.
7. O fortalecimento da agricultura na frente agronegócios e na frente agricultura familiar.
8. Outros.

Grupo 2 – sementes que vêm sendo lançadas mas que ainda não receberam a devida ênfase:

1. A prioridade na saúde (muito mais no quesito recursos do que no quesito modelo).
2. O avanço tecnológico e na inovação.
3. O aprimoramento da gestão pública.
4. A desoneração do investimento e a racionalização tributária.
5. O apoio às pequenas e micro empresas

Grupo 3 – onde se dará o embate ideológico:

1. Controle do fluxo de capitais.
Não se trata apenas de uma questão teórica, mas um dos pilares do modelo econômico que se quiser desenhar pela frente, porque define vitoriosos e perdedores.

Na verdade, há apenas dois modelos em discussão, já que os dois grupos anteriores cabem em qualquer esquema ideológico.

No modelo do livre fluxo de capitais, a liderança da economia cabe aos gestores de recursos, ao grande capital financeiro exportado e/ou aliado a capitais internacionais.

Nesse modelo, se mantido o livre fluxo de capitais, ocorre uma apreciação cambial e taxas de juros internas superiores às internacionais.

O vencedor é o grande capital financeiro, que ganha com arbitragem de preços, com a redução dos preços dos ativos nacionais (em reais, pela taxa de juros mais elevada) e comanda o processo, em geral adquirindo empresas e colocando à frente CEOs.

Sua lógica não é da perpetuação à frente do negócio. É da capitalização da empresa, de melhorias pontuais na gestão para valorizar os ativos e passar para frente.

Não se trata de algo totalmente negativo. A reciclagem da economia – especialmente em processos de profundas mudanças tecnológicas – é bastante facilitada pelo azeitamento do mercado de capitais. Aliás, será um dos pontos fundamentais na próxima etapa de investimentos da economia. O nó da questão é outro (que abordarei mais na frente).

2. Privatização do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico s Social) e dos fundos sociais.

Ao definir um vitorioso (o capital financeiro) o modelo define também o perdedor (o capital industrial e de serviços). Esse é o centro da questão. E, por aí, pode-se entender toda a relação de propostas defendidas pelos porta-vozes desse modelo.

Por exemplo, no combate ao bancos públicos de financiamento, como o BNDES.

Ao proverem as indústrias de capital, torna-as menos vulneráveis aos aportes do capital financeiro. E, muitas vezes, dificulta sua ida para o mercado de capitais. Daí as propostas constantes do Pérsio, Bacha, André de privatizar o BNDES e os fundos sociais em geral.

3. Controle do pré-sal.

É o ponto central da batalha, por concentrar a maior parte dos investimentos da próxima década. Por aí se entende a entrevista do Armínio Fraga no Valor, a contratação da empresa estrangeira pela oposição, na CPI da Petrobras, as manifestações iniciais de Sérgio Guerra, presidente do PSDB.

O nó da questão

A grande questão é que esse modelo – câmbio apreciado, juros altos – não apenas enfraquece os industrialistas frente os financistas, mas enfraquece a competitividade da economia brasileira como um todo e – por si só – promove um intenso processo de concentração, impede o crescimento de pequenas e médias empresas, esgarça o tecido econômico, a malha de empresas que deve circundar as empresas-polo.

Ou seja, em uma primeira etapa, uma empresa adquirida por um fundo melhora a competitividade, fica capitalizada, pode adquirir concorrentes, melhorar a gestão.

Mas, com o câmbio apreciado, só prosperarão empresas umbilicalmente ligadas ao mercado interno. Se quiserem vôos maiores, se capitalizarão internamente mas montarão suas bases fora do país – porque sem condições fiscais, de financiamento, sem câmbio, não terão como ousar vôos maiores.

Cada grupo e cada empresa poderão se beneficiar individualmente. Há avanços corporativos – na governança, na prestação de contas aos acionistas, na flexibilidade para substituir gestores incompetentes. Mas o país não se beneficia no todo, porque a contrapartida desse financismo desvairado será a de converter o país apenas como plataforma de lançamento de grupos e empresas que fincarão suas unidades produtivas em outras economias. Ou então, promover uma concentrarão que tira completamente o poder de barganha da cadeia produtiva do setor.

O grande desafio será conjugar os dois modelos. Isso foi possível nos anos 30, quando a crise cambial praticamente obrigou o governo a interromper o livre fluxo de capitais. Aí esses capitais caíram na economia real, deixaram de lado a jogatina e ajudaram fortemente o processo de industrialização brasileira.

Os partidos políticos

Nos próximos anos, o financismo se aglutinará em torno de Aécio Neves – ganhando ou perdendo as eleições, saindo ou não candidato a presidente. O desenvolvimentismo se aglutinará em torno do herdeiro de Lula – seja quem for.

Mas, antes, Lula terá que tomar decisões que reduzam um pouco a grande frente que ele montou: controle de capitais, política cambial pró-desenvolvimento, fortalecimento do BNDES e, ao mesmo tempo, estímulo ao mercado de capitais.

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