quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Turno reduzido afetou qualidade e aprofundou desigualdade social

Educação
Edição de segunda-feira 02 de novembro de 2009

Embora ressaltando que o país não dispõe de dados e estudos definitivos sobre a questão, o consultor João Monlevade diz ser possível afirmar que a redução da jornada escolar teve impacto direto sobre a qualidade do ensino no país, começando pelo trabalho dos docentes.
Até a década de 1920 – quando 95% dos alunos da rede pública se concentravam no ensino primário –, o professor tinha um só cargo e trabalhava na mesma escola e na mesma turma. Essa condição lhe permitia avaliar diariamente os estudantes, preparando suas aulas de acordo com o ritmo de aprendizado. Outro efeito positivo e de extrema importância dessa dedicação, ressalta o consultor, era a valorização do professor pela comunidade, em razão dos resultados do seu trabalho junto aos estudantes.
Com a divisão de turnos, os professores passaram a assumir dupla ou até tripla jornada, inclusive com acúmulo de cargos públicos, permitido a partir da Constituição de 1934. Com essa nova carga de trabalho, os docentes, segundo Monlevade, foram mudando de papel: de garantidores da aprendizagem passaram a "expositores de matérias". Não exigiam mais dos alunos o "dever de casa", mesmo porque não dispunham mais de tempo para corrigi-lo, nem avaliavam diariamente os conteúdos ensinados.
Para o consultor, seguiu-se, por consequência, a desvalorização salarial, profissional e social do professor: "de profissão disputada, passou a ser apenas uma opção de sobrevivência".João Monlevade lembra que a aprendizagem depende do empenho dos governos e da escola, quando formulam as políticas, decidem os currículos e administram o processo; da dedicação dos professores; da periodicidade com que os alunos são avaliados; e do grau de conhecimento que a família tem dos conteúdos e da intensidade com que eles são partilhados em casa.
Para tentar atenuar o problema, estudantes de classes alta e média buscaram atividades extras, e se valem de livros e computadores em casa, aulas de música, informática, esportes, línguas estrangeiras e reforço escolar.
Já os alunos das classes populares limitam-se a ver televisão, a brincar nas ruas e a ajudar em casa. Assim, de acordo com Monlevade, o turno reduzido acabou por produzir um efeito ainda mais danoso: a escola deixou de ser um facilitador para a ascensão social, e passou a reproduzir e acentuar as desigualdades culturais e sociais.

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