terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Chávez propõe uma “Vª Internacional”

Junto ao 1º Congresso extraordinário do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) – reunido de 19 a 21 de novembro em Caracas -, realizou-se um heterogêneo “Congresso internacional de partidos de esquerdas”. Este foi o cenário escolhido pelo Presidente venezuelano para chamar – imprevistamente para a maioria dos presentes – a criar uma “Quinta Internacional Socialista”. Chávez pediu ao “I Congresso Extraordinário do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) que inclua em sua agenda de debate, a proposta de convocar aos partidos políticos e correntes socialistas a criar a Quinta Internacional Socialista como uma nova organização que se adéqüe ao tempo e aos desafios que vivemos, e se converta em um instrumento de unificação e articulação da luta dos povos para salvar a este planeta”. Entre os convidados a somar-se a tal proeza estavam “delegados de 55 partidos de mais de 30 países, representando elementos da velha e nova esquerda emergente, incluindo um número de partidos comunistas e social democratas da Ásia e Europa, forças de liberação nacional da África e do Oriente Médio, novos partidos de esquerda como Die Linke (Alemanha), Bloco de Esquerda (Portugal), Partido de Esquerda (França), e forças radicais e de esquerda da América Latina, algumas velhas, como a Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN) e alguns novos, como o Movimento ao Socialismo (Bolívia) e, claro, o PSUV.” Entre eles temos que anotar a senadora Piedad Córdoba, do Partido Liberal da Colômbia, o Ministro de Obras Públicas de Bolívia, Walter Delgadillo (ligado ao centro-esquerda MSM, aliado de Evo Morales). Não faltavam representantes do PRI mexicano, o justicialismo argentino e o PT de Lula. Pelo visto, este abanico de organizações que são, segundo Chávez e seus seguidores, as “correntes sociais, de esquerda e anti-imperialistas” convidadas a construir a internacional do século XXI, inclui ranços de partidos burgueses e aos mais tíbios “progressistas”, profundamente comprometidos com seus estados e regimes nacionais e hostis à organização independente do movimento operário e de massas frente à burguesia.

Ainda assim, o chamado de Chávez, a sua maneira, tem traído a colación um tema crucial: a contradição que existe entre o caráter mundial da crise capitalista e a coordenação dos ataques do imperialismo e as burguesias para descarregá-la sobre os trabalhadores e povos do mundo, e a falta de um pólo internacional que lute por coordenar e unificar a resistência de massas a nível internacional. A necessidade desta unificação ressalta ante a agressividade do imperialismo que pela boca de Obama recebeu o “Prêmio Nobel da Paz” reivindicar seu direito ao uso da força em “guerras justas” enquanto envia mais trapos ao Afeganistão, o papel mundial de um punhado de transações no domínio da produção e os mercados, o saque dos recursos naturais e o meio ambiente e a espoliação dos trabalhadores, e as tremendas seqüelas para bilhões de seres humanos que acarreta este irracional sistema capitalista fundado na exploração e no lucro, seqüelas que as crises ameaça converter em penúrias e catástrofes inéditas para a humanidade. Mas o capitalismo imperialista é um sistema mundial assentado no estreito entrelaçamento da economia e da política internacionais, que não só não cairá, mas deve ser derrubado, senão que esta tarefa deve ser encarada a nível internacional. Para lutar eficazmente para derrotá-lo e construir uma sociedade distinta, sem exploração nem opressão, é preciso unir internacionalmente a luta dos trabalhadores e dos oprimidos de todo o mundo. E para isso é necessário uma organização: um partido mundial da revolução socialista. Por isso não é de estranhar que Hugo Chávez tenha buscado apoio discursivo para seu ponto de vista na grande tradição do marxismo revolucionário, tal como fez em diversas ocasiões (ao enunciar seu “socialismo do século XXI” com empresários, ou lançar a construção do PSUV como partido do regime). Assim, em seu longo discurso incluiu a história das internacionais operárias e socialistas: recordou a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, entre cujos fundadores estiveram Marx e Engels; a Segunda Internacional, baseada na construção de grandes sindicatos e partidos socialistas na Europa a fins do século XIX; a criação da Internacional Comunista de Lênin e Trotsky após a defecção reformista daquela, ao calor do triunfo da Revolução Russa e para impulsionar a revolução mundial; e, finalmente, depois de sua destruição como organização revolucionária pelo stalinismo, a fundação da Quarta Internacional por Trotsky e seus camaradas em 1938 para preservar a herança do bolchevismo e preparar as bases de uma nova direção revolucionária internacional. Assim, o discurso de Chávez, muito além de suas intenções e do conteúdo de seu projeto político, implicou um reconhecimento e uma homenagem ao marxismo e sua história como única corrente que, tirando todas as conclusões da análise do capitalismo e da luta de classes, colocou conseqüentemente a necessidade e se propôs edificar uma direção revolucionária internacional, dotando-se de programa, estratégia e organização para esta tarefa colossal. É certo que a 70 anos da fundação da Quarta Internacional, a mesma não existe como organização revolucionária unificada com influência de massas. Devido a estabilização capitalista do Segundo Pós-Guerra (que alijou a revolução dos países mais avançados e com mais tradição operária e socialista), da hegemonia stalinista, socialdemocrata e nacionalista sobre o movimento operário e os processos revolucionários da periferia, e pela capitulação oportunista a estes fenômenos por muitos de seus dirigentes logo após o assassinato de Trotsky, a Quarta estalou e se transformou em um movimento centrista com fios parciais de continuidade com o marxismo de Lênin e Trotsky Assim, ainda que haja numerosas tendências que se reivindiquem seu programa e sua bandeira, hoje não existe uma verdadeira Quarta Internacional, nem sequer como embrião: uma organização de quadros com um programa provado, para lutar por ganhar influência de massas e reconstruir o partido mundial da revolução socialista que esta etapa histórica reclama. Quer dizer que suas concepções revolucionárias, seu programa e seus métodos foram superados? Cremos que não. Até agora, são os únicos que, forjados na época de grandes acontecimentos revolucionários e contra-revolucionários do século XX – as revoluções russa, alemã e chinesa, o ascenso do fascismo, a passagem ao reformismo da socialdemocracia e logo dos próprios partidos comunistas, a burocratização stalinista da União Soviética, etc. – e aquilatando as lições de mais de um século e meio de luta de classes mundial, podem oferecer uma base sólida ante os problemas e tarefas deste começo do século XXI, no umbral de um novo ciclo de “crises, guerras e revoluções”, para desplegar uma estratégia enraizada na classe trabalhadora que possa levar à vitória. Estas aquisições teóricas e políticas expressam três problemas fundamentais, de “princípio”: a luta conseqüente pela organização politicamente independente da classe trabalhadora, que por sua imensa força social e papel na produção e na vida econômica e social, é a melhor situada para impulsionar um projeto de emancipação humana; o que exige que possa disputar com as correntes burguesas e pequeno-burguesas que predicam a colaboração com os exploradores “democráticos”, “nacionalistas” ou “progressistas” a hegemonia sobre o amplo movimento dos explorados e oprimidos do campo e da cidade, para consolidar uma firme aliança de classes que possa derrotar os exploradores e o imperialismo; e que isto abra caminho a um poder operário e popular baseado na mais ampla auto-organização democrática das massas, para poder encarar a transição ao socialismo com democracia operária. Ora bem, estas questões, que separam revolucionários de reformistas que propugnam que é possível “humanizar o capital”, são secundárias hoje? Ter-se-ia de postergá-las para construir uma “internacional ampla”, sem delimitação de classe nem de programa? Posto que se trata de unir, não seria melhor incluir todos os interessados? Este arrazoamento é completamente equivocado. Pode-se e deve-se unir amplamente para a mobilização através das formas mais diversas de unidade de ação e frente única contra o imperialismo, os capitalistas e seus governos, e incluindo os mais diversos setores: movimentos camponeses, povos indígenas, movimentos feministas, minorias oprimidas racial, religiosa ou sexualmente e toda causa progressiva contra toda guerra, pelos direitos democráticos ou contra a depredação capitalista do meio ambiente, etc. Mas isso não significa diluir e mesclar a personalidade política e o programa daqueles que lutam para que a classe trabalhadora se recupere como sujeito social e politicamente diferenciado e a luta pelo socialismo como alternativa histórica frente ao domínio do capital. Trata-se de “golpear juntos e marchar separados”. Isto, que é certo a nível nacional, é dupla e triplamente certo a nível internacional. Nos inícios do movimento operário, na Primeira Internacional, confluíram anarquistas, marxistas, sindicalistas e outras correntes. Mas Marx e Engels tiveram de dar uma dura batalha e conduzir à cisão com os anarquistas, porque prontamente a convivência se revelou impossível: uma organização internacional, se quer ser útil à missão que se fixou e não converter-se numa espécie de clube de debates ou em um parlamento confusionista, completamente inútil para a ação, deve basear-se numa compreensão comum das tarefas, isto é, em um programa, ao redor do qual possam agrupar-se os trabalhadores avançados. Hoje, há mais de um século e meio, é impossível construir uma verdadeira internacional lançando pela borda fora as lições programáticas e políticas deste dramático período da história. A etapa atual da crise capitalista exige começar por construir um pólo, o embrião de uma internacional de combate, experimentada nas lutas e com um programa claro que no calor da luta de classes possa fundir-se com a vanguarda e buscar uma influência de massas. A “Quinta Internacional” proposta por Chávez seria o oposto. Propõe-se antes a um agrupamentos de velhos e novos aparatos políticos – muitos vazios de toda militância de bases real – que abarcaria até governos à frente de Estados semicolonais (como os da ALBA), setores de velhos movimentos nacionalistas burgueses que busacam lavar a cara depois de décadas de prostação ante o imperialismo (PRI, Al Fatah, etc.), e diversas correntes populistas e reformistas (PT, FSLN, o próprio PSUV, o partido de esquerda francês) e inclusive o restauracionista PC chinês, e subordinados a eles, e dando-lhe “radicalidade” estão convidados a somar-se os movimentos sociais, a juventude anticapitalista e até certos “trotskistas”, todo em redor de um discurso nacionalista adornado de frases socialistas e anticapitalistas para servir a uma estratégia de pressão e pechincha de concessões com o imperialismo e com a burguesia.. Não somente pela extrema heterogeneidade das correntes que o formariam e a confusão ideológica e de objetivos – que inclui até alentar o comércio entre os signatários de tal acordo – senão que, fundamentalmente, propõe incluir forças políticas integradas ou profundamente adaptadas a seus respectivos regimes nacionais e com base de classe burguesa ou pequeno-burguesa, portanto, organicamente incapazes de defender conseqüentemente um interesse comum dos explorados por cima de “suas” respectivas “pátrias” e Estados.

Longe de ser um instrumento adequado para enfrentar o imperialismo, a Quinta de Chávez seria mais parecido com uma “faca sem fio”, incapaz de enfrentá-lo seriamente ou, pior ainda, só podia traçar um caminho de capitulações, frustrações e derrotas a nível internacional, como o que marcou as direções nacionalistas, reformistas e stalinistas na história precedente. Mais que nas internacionais marxistas, Chávez devera haver buscado antecedentes para seu projeto na Conferência de Bandung (1954) no período em que Perón, Sukarno, Nehru, Tito, e outros líderes nacionalistas trataram de constituir um movimento do “terceiro mundo” frente à hegemonia imperialista e marcando distâncias do “socialismo real” stalinista, que apesar dos discursos nunca conseguiu articular-se em uma frente sólida nem enfrentar o imperialismo e as ditaduras militares. Seria distinto hoje? Para demonstrá-lo, basta um exemplo: nem Chávez nem os convidados a constituir uma nova internacional foram capazes de organizar e coordenar uma campanha de mobilização massiva séria contra o golpe pró-imperialista em Honduras e de fato terminaram vacilando ante a farsa eleitoral imposta pelo imperialismo A verdade é que afinal de contas Chávez pratica uma política nacionalista de negociação com o imperialismo e com os capitalistas venezuelanos, sem romper os marcos da ordem burguesa que nada tem que ver com os interesses históricos do movimento operário e do socialismo. Ante as dificuldades econômicas e o desencanto de setores populares na Venezuela, tenta compensar com novas doses massivas de retórica do “socialismo do século XXI” (saqueando para isso a tradição marxista) sendo a Quinta uma extensão ao terreno internacional desses métodos. Tem-se de ver se a “V Internacional Socialista” consegue deslanchar e em que condições. Prontamente recebeu adesão das tendências “bolivarianas” e de outras correntes, mas o chamado não deixou de colocar em situação embaraçosa alguns aliados de Chávez, que sentem seu convite como um “abraço de ossos” para sua sobrevivência organizativa, como certos remanescentes do stalinismo e do maoísmo. O governo cubano mostrou-se até agora bastante circunspecto ante o chamado. Entusiasta do chavismo como o “Secretariado Unificado” (que anima o NPA na França e segue um curso internacional liquidador de toda tradição programática e política trotskista) se pronunciaram a favor: “este chamamento cria as condições para uma nova discussão internacional, indissociável com a revolução bolivariana. É neste espírito que a IV Internacional, suas organizações e seus militantes responderão: ‘presentes!’” escreveu François Sabado, encontrando uma melhor ocasião para um salto liquidacionista no próximo XVI Congresso internacional do SU. Enquanto isso, a corrente El Militante, que se situa como “conselheiro trotskista” de Chávez, fica em posição um tanto incômoda, pois preferem manter a “contrasenha” da Quarta Internacional enquanto praticam a maior das adaptações oportunistas ao chavismo e outros movimento burgueses e reformistas. Para conduzir a luta contra a opressão imperialista e a exploração do capital não é necessário uma “Quinta Internacional” da fraseologia e da conciliação nacionalista, além do fato de que não possa construir uma frente eficaz para combater o imperialismo, seria ainda útil para fechar a possibilidade de um caminho independente aos trabalhadores e controlar sua força a serviço da colaboração de classes. É necessária uma internacional de combate dos trabalhadores, um partido mundial da revolução socialista, a Quarta Internacional. Não se trata de “números” nem de dogmatismo, senão de defender os fundamentos com que foi criada a IV: a concepção da revolução permanente, seu programa, sua organização e sua defesa de uma estratégia profundamente enraizada na classe operária, são ainda hoje a única resposta programática, política e estratégica que pode dar resposta aos problemas que enfrentam as massas do mundo ante o sistema capitalista e imperialista em decadência. Há que convocar a construí-la a vanguarda operária e juvenil que hoje desperta à vida política e que pode aportar sua energia, seu entusiasmo e sua vocação revolucionária a esta tarefa vital.

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