terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Meirelles: eleição pode gerar tensão na economia em 2010

Após avaliar que o país cresce em base sólidas e sustentáveis, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que o principal fator de tensão e preocupação na economia não será externo, como nos últimos 15 meses de crise global, mas as eleições de 2010. Numa análise fria e realista, afirma que os temores de mudanças nos rumos da política econômica provocarão incertezas. São remotas, no entanto, as chances de o Brasil viver um novo 2002, quando Lula foi eleito para o primeiro mandato e o país mergulhou numa crise, afirmou Meirelles em entrevista a Patrícia Duarte e Sérgio Fadul. Para ele, o Brasil está mais sólido, mas, diante da inquietação que está por vir com as eleições, avisa que o BC não hesitará e dispõe de um arsenal para combater distorções. Sobre o seu futuro, Meirelles faz mistério: diz que não é político, mas poderá ser a partir do fim de março. E admite até voltar à iniciativa privada.

Tensão à vista com eleição

Presidente do BC diz que temor de mudança na política econômica causa incerteza

ENTREVISTA
Henrique Meirelles

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, encerrou a semana passada com o semblante que não disfarçava o cansaço. O discurso, porém, era de satisfação pelos resultados colhidos no difícil ano de resgate da crise internacional e de grande entusiasmo com as perspectivas futuras para o Brasil, apesar do desempenho do PIB no terceiro trimestre (1,3%), bem abaixo das expectativas do mercado e do governo. Mas ele deixa claro que, ao primeiro sinal de superaquecimento da economia, o BC atuará. Meirelles não diz, mas o recado é claro: nessas horas o instrumento clássico é subir os juros. Para ele, o principal fator de tensão e preocupação no horizonte em 2010 não será externo, como nos últimos 15 meses, mas exatamente as eleições que se aproximam. Os temores de mudanças nos rumos da política econômica provocarão incertezas, diz. Para Meirelles, no entanto, são remotas as chances de o país viver um novo 2002, quando Lula foi eleito para o primeiro mandato presidencial e o país mergulhou numa crise. O Brasil está mais sólido, mas diante da inquietação que está por vir com as eleições, avisa que o BC não hesitará e dispõe de um arsenal pesado para combater distorções. O presidente do BC deixa ainda transparecer viver um dilema pessoal entre retomar a carreira política ou continuar à frente do BC até o fim de 2010

Patrícia Duarte e Sergio Fadul

O GLOBO: Estamos terminando 2009 melhor do que se projetava no início do ano? HENRIQUE MEIRELLES: Acho que a melhor definição é dentro do que se trabalhou para que fosse. De fato, o Brasil está terminando o ano muito bem, com desempenho da economia excepcional. O Brasil tem perspectiva de crescimento sustentado em 2010, o mercado prevê mais de 5%. É um crescimento saudável, porque é baseado no crescimento do emprego, da renda, do crédito e dos investimentos.

O resultado do PIB no terceiro trimestre (com crescimento de 1,3%, abaixo dos 2% esperados pelo mercado) jogou água fria nas expectativas? MEIRELLES: Existem dois pontos.

Primeiro: não há dúvida de que jogou uma certa água fria na euforia, na exuberância, mais ou menos na linha que vínhamos alertando há bastante tempo. Não é aquele clima de incêndio que se estava esperando. Por outro lado, a composição desse PIB é muito saudável. Temos um crescimento dos investimentos de cerca de 30% anualizados, da indústria perto de 10%. Do lado da demanda, tem o consumo das famílias, sustentado por fatores sólidos: emprego, renda e crédito. Não é o que vemos em alguns países com estímulos do Estado. Isso dá uma base para bastante otimismo em 2010.

O Brasil ainda depende de incentivos fiscais para crescer? MEIRELLES: Já existe um cronograma de retiradas desses estímulos em 2010. Existe uma série de coisas que está sendo anunciada neste momento e foi anunciada durante 2009.

O que precisamos olhar agora é 2010, e já existe um cronograma de retirada, como para o IPI.

Mas esses incentivos também tinham um cronograma de retirada antes e acabou não acontecendo...

MEIRELLES: Porque se julgou que era necessário fazer um processo mais gradual. Retirou-se um pedaço. É uma questão de avaliação... Ficar dependendo disso (incentivos fiscais), não acredito. A economia já tem um motor próprio de crédito e renda, e agora de investimentos, inclusive externo. É uma situação diferente da americana, que é dependente de estímulos fiscais para crescer. O que se discute, depois de todos os estímulos fiscais e monetários, é se poderá haver um superaquecimento na economia. Para isso, existe o BC, que analisa através de seus modelos econométricos, faz previsões de inflação e toma medidas adequadas, se precisar.

O Brasil pode fechar 2009 crescendo, ou o mercado está certo ao prever que a economia vai encolher? MEIRELLES: Estamos revisando nossos números (até agora, o BC calcula expansão de 0,8%). Mas, na última vez que fizemos uma revisão, ainda estava positivo. Ainda não temos um número, mas pode ser ainda positivo.

O senhor está à frente do BC há sete anos e, nesse tempo, o ponto de maior cobrança certamente foi a taxa de juros. O câmbio assumiu o posto neste ano? MEIRELLES: É normal que, em cada momento, determinados setores estejam pleiteando do governo alguma coisa que beneficie o seu segmento.

Quando o dólar subiu muito, ouvíamos a reclamação das empresas que estavam expostas a derivativos de que o BC tinha de agir para evitar que essas empresas quebrassem. Os exportadores, naquele momento, estavam tranquilos. Faz parte do equilíbrio normal da sociedade, e o BC tem de administrar o equilíbrio geral macroeconômico. Não se pode fazer política macroeconômica setorial.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a questão cambial está resolvida. O senhor concorda com ele? MEIRELLES: Não há dúvida de que aquela trajetória de depreciação do dólar que esteve em curso está, agora, em patamar de relativo equilíbrio.

Do dólar em relação a diversas moedas, inclusive o real. Uma certa euforia também que existia nos mercados foi um pouco equilibrada por esses eventos de Dubai, da Grécia, da Espanha, o que levou um pouco de sobriedade também aos mercados.

Além do mais, o BC continua com sua politica de acumulação de reservas, houve adoção de algumas medidas fiscais (como cobrança de IOF sobre entrada de capital estrangeiro para investimento em ações e títulos no país). Agora, a mensagem mais importante é que num câmbio flutuante existe um sistema de correção. No momento que existe aumento gradual das importações e do déficit em conta corrente, haverá correção das taxas de câmbio caso haja distorções. O que importa é evitar exageros, como já existiram no passado. Os governos e os BCs estão olhando isso com muito rigor, temos alertado os mercados contra excesso de euforia e distorções nas formações de preços.

Diante dessa calmaria, perdeu-se a urgência na elaboração de medidas para modernizar a legislação cambial? MEIRELLES: Continua normalmente.

O trabalho de modernização da legislação cambial, interrompido com a crise, foi retomado. São mudanças normais, que não visam a alterar a trajetória de câmbio. Por exemplo, envolvendo investimentos de brasileiros no exterior, garantias de investidores estrangeiros no Brasil.

O ano de 2009 foi dos bancos públicos, que cresceram em participação no mercado. Como vai ser a concorrência bancária em 2010? MEIRELLES: Vai ser o ano do aumento do grau de competitividade do mercado. Os bancos privados aumentaram em muito o grau de agressividade nos últimos meses, e acredito que vamos ver um equilíbrio em 2010.

Os bancos públicos precisam continuar com o papel de instrumento de política econômica que tiveram em 2009? MEIRELLES: Não. Acho que eles cumpriram o papel contracíclico no momento de crise e agora entramos num momento de normalidade, onde voltam a cumprir seus papéis de bancos comerciais e, onde prevê a legislação e a prática, bancos de fomento em áreas específicas.

Qual a maior preocupação no horizonte para o ano que vem, o que vai provocar tensão na economia? O cenário externo, como foi em 2009, ou o cenário interno? MEIRELLES: Acho que o cenário interno tenderá a gerar mais tensão no ano de 2010.

Por que? MEIRELLES: É normal que num ano eleitoral sempre exista um pouco mais de preocupação com o futuro.

Diante dos candidatos que estão colocados até o momento? MEIRELLES: Em qualquer circunstância, em qualquer ano eleitoral, sempre um processo de mudança gera algumas perguntas. Isso é normal.

A palavra que eles (mercado) dizem, um pouquinho mais de tensão, é resultado da incerteza. Mas, evidentemente, estamos preparados, e o Banco Central está muito bem equipado para manter o equilíbrio normalmente.

Do ponto de vista do resultado, não me preocupa. O Brasil vai crescer de forma equilibrada, e o BC tem todos os instrumentos para manter esse equilíbrio.

O senhor prevê que o risco de termos distorções profundas nos indicadores econômicos como nas eleições de 2002 de novo é menor? MEIRELLES: É muito baixo. Vamos devagar. Estamos falando de duas coisas diferentes. O risco de termos 2002 é remoto, para não dizer que não existe. Banqueiro central nunca diz que não existe risco. É remoto porque o Brasil tem reservas internacionais de US$ 240 bilhões, estará recebendo mais de US$ 40 bilhões em investimentos externos durante 2010, o Brasil está crescendo, a inflação está na meta, a dívida pública está próxima a 40% do PIB, não há dívida dolarizada, o Tesouro Nacional é credor internacional.

Então é uma situação estrutural completamente diferente daquela época.

Por outro lado, o que se coloca de preocupação não é isso, de ter uma crise em 2010. A preocupação é se poderia ou não haver, dependendo de quem seria o próximo presidente, uma mudança de política econômica. O que eu digo no mundo inteiro é que acho que não há espaço hoje na sociedade brasileira para mudança de política econômica em virtude dos ganhos trazidos pela estabilidade.

l E o senhor, nas eleições, estará no ataque (disputando o pleito) ou na defesa (no BC)? MEIRELLES: Espero tomar essa decisão na segunda quinzena de março de 2010. É quando vou começar a pensar nesse assunto.

Meirelles: "Não sou um político. Poderei vir a ser, quem sabe?"

Ele não descarta ainda a possibilidade de voltar para a iniciativa privada

ENTREVISTA Henrique Meirelles

Prestes a retomar uma carreira política iniciada em 2002 e interrompida precocemente às vésperas de assumir seu primeiro mandato como deputado federal pelo estado de Goiás — justamente para ocupar a presidência do Banco Central, em 2003 —, Henrique Meirelles afirma que suas principais referências políticas são os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, pelo dinamismo que trouxe ao país e o sentimento de o Brasil querer ser grande, e Tancredo Neves, pela sabedoria e espírito conciliatório.

Recém filiado ao PMDB, como um passaporte para voltar ao mundo político, e cotado para inúmeros cargos — inclusive para compor a chapa presidencial com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff — Meirelles faz mistério sobre qual será seu projeto. Diz que não é político, mas poderá ser a partir do fim de março de 2010. E, pela primeira vez, admite até mesmo voltar para a iniciativa privada.

Patrícia Duarte e Sergio Fadul BRASÍLIA

O GLOBO: Na confraternização de fim de ano do PMDB, o senhor foi bastante disputado.

Está à vontade? HENRIQUE MEIRELLES: Eu simplesmente fui convidado e compareci como um mero filiado à festa de fim de ano do PMDB. Eu não sou político.

Poderei vir a ser, quem sabe? Hoje, sou banqueiro central.

Qual foi a sua motivação para entrar na política? MEIRELLES: Quando resolvi me aposentar (da presidência mundial do BankBoston) em 2002, comecei a pensar nisso um ano antes. Tomei algumas decisões, que não eram fáceis. A primeira, me aposentar, quase dez anos antes do prazo limite que seria em 2012, exercendo um direito por contrato por ter cumprido os resultados esperados.

Tomei a decisão de me aposentar e voltar ao Brasil. A segunda decisão foi a de colocar a serviço do país toda a experiência que tive no mundo inteiro. Liderei uma instituição com presença em 32 países, lidando com problemas econômicos. O Brasil estava em crise. Conversei com diversos líderes e políticos na época. Com o hoje presidente Lula, com o então presidente Fernando Henrique, com o diretório nacional do então PFL (hoje DEM), com o atual deputado federal Ciro Gomes (PSBCE) e com líderes do setor privado.

E concluí que, naquele momento, uma maneira de colocar minha experiência a serviço do país seria pela via parlamentar.

Fui para Goiás, me candidatei a deputado federal, ganhei. O presidente Lula me convidou para assumir o BC. Renunciei ao mandato, vim e aqui estou.

O senhor sempre teve atração pela política? MEIRELLES: Não é exatamente política. Sempre gostei de ter uma participação comunitária, fundei a sociedade Viva o Centro de São Paulo, em 1991, participei da fundação Travessia juntamente com o hoje deputado Ricardo Berzoini, em 1995, fiz política estudantil intensamente no secundário. Na minha família, meu pai foi secretário de estado várias vezes.

Meu avô foi prefeito. Não há dúvida de que tive convivência com a função pública, e estou no BC há sete anos.

Entre as alternativas que se apresentam, como disputar o governo de Goiás ou ser vicepresidente na chapa da ministra Dilma Rousseff, qual lhe agrada mais? MEIRELLES: Existem várias alternativas na vida pública, como deputado estadual, deputado federal, senador, vice-governador, governador, vice-presidente (rindo). Não tenho pretensões, hoje, a nenhum desses cargos. Isso que eu digo é sério.

Estou dedicado ao BC até a segunda quinzena de março, quando tomarei uma decisão.

Se buscarei uma via eleitoral ou não. Se não, está resolvido, fico no BC até dezembro de 2010. Se decidir buscar a via eleitoral, terei dois, três meses para analisar.

Só aí, faria as conversas, as articulações.

Quais as suas referências na política? MEIRELLES: Lulaaaaa (rindo).

Juscelino Kubitschek , Tancredo Neves. São dois nomes. Juscelino, pelo que ele representou na época, de otimismo, de dinamismo, de liderança. Foi quando o Brasil mostrou uma disposição de se tornar um país de grande porte. E Tancredo Neves por sua sabedoria, capacidade de conciliação, visão, o homem que teve papel muito importante para a retomada da democracia.

Existe algum político que o senhor para e escuta? MEIRELLES: Lula (rindo novamente).

Prefiro não me manifestar, sou presidente do BC.

Observo economistas, presidentes do BC, ministros da Fazenda. Não dedico grande tempo, é real isso, a ouvir o debate político. Sou um homem muito focado, muito disciplinado, e o meu tempo livre é muito voltado para a leitura e avaliação econômica.

Quem são seus conselheiros políticos? MEIRELLES: Não tenho conselheiros políticos porque não estou fazendo política. Se tomar a decisão de tomar a via eleitoral, aí, a partir de abril, terei todo o tempo para conversar com políticos.

E sua família está fechada qualquer que seja sua decisão? MEIRELLES: Está fechada e não abre, para qualquer decisão.

Inclusive voltar ao setor privado.

Isso é uma novidade...

MEIRELLES: É uma possibilidade, lógico que é uma possibilidade.

Gosto muito, sempre fui do setor privado. Já fiz bastante coisa no setor público.

Não consideraria a possibilidade quando me aposentei do setor privado em 2002, achava que tinha que prestar uma contribuição ao país. Já se passaram sete anos, num certo momento terão sido oito.

E o senhor, nesse período, queimando suas reservas financeiras...

MEIRELLES: Falou e disse (rindo). Presidente e diretor do BC não têm nada de reajuste.

Muito pouco.

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