segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nas entrelinhas tucanas

Belo Horizonte, 17 de dezembro de 2009 (quinta-feira): ao lado de Sérgio Guerra, presidente do PSDB, Aécio Neves, governador de Minas Gerais, anuncia que abre mão de sua pré-candidatura a presidente da república. Em sua nota, atribui à "dinâmica própria" do "tempo da política" a impossibilidade de "colaborar para a ampla convergência que buscava construir". Aécio defendia que até o final de 2009 o PSDB deveria apresentar sua candidatura, pois “uma construção com essa dimensão e complexidade não poderia ser realizada às vésperas das eleições”. Cabe agora a José Serra, governador de São Paulo, somente a decisão de quando anunciar sua candidatura para disputar com a petista Dilma Rousseff.

No entanto, tucanos diriam não se tratar de uma disputa contra Dilma, e sim uma disputa presidencial contra outras candidaturas e propostas, no plural. Obviamente, quem busca se apresentar como alternativa faz coro. No mesmo rumo segue Aécio Neves, que tem como objetivo "responder à autoritária armadilha do confronto plebiscitário e ao discurso que perigosamente tenta dividir o País ao meio, entre bons e maus, entre ricos e pobres”. José Serra diz que ele e Aécio não são "estimuladores de disputas de brasileiros contra brasileiros, de classes contra classes, de moradores de uma região contra moradores de outra região".

Assim, se evidencia a essência da movimentação para se evitar uma disputa plebiscitária em 2010: não se trata apenas de contornar um prejudicial confronto direto com Dilma, Lula, PT, todos bem avaliados em sucessivas pesquisas de opinião, mas também de afirmar a existência de interesses supostamente comuns entre classes opostas, visando "conquistar uma inédita e necessária convergência nacional". Desta forma, evitar o confronto polarizado entre PT e PSDB faz parte da estratégia geral da burguesia de apresentar seus interesses de classe minoritária como interesses gerais de toda a população.

Aécio diz que a divisão do país entre pobres é ricos é decorrência de um discurso perigoso – não de uma oposição realmente existente, realidade concreta e objetiva, conseqüência da histórica usurpação e concentração de riqueza, expressão dos conflitos entre os distintos interesses de classe. A polarização –

encabeçada por PT e PSDB nas disputas presidenciais desde 1994 –, segundo este raciocínio, representaria não uma disputa de projetos e visões de mundo impulsionadas por interesses opostos e representadas por cada partido, mas uma mera construção político-partidária, um artifício tático eleitoral.

Para quem é minoria socialmente e exerce uma forte hegemonia sobre a sociedade, a estratégia de generalizar interesses particulares tem sido exitosa: cooptando parcela da classe trabalhadora, permite-se manter as coisas como elas estão. Uma estratégia tão exitosa que fez parte expressiva da esquerda crer que a polarização e o conflito seriam desvantajosos, culminando em rebaixamento programático e conciliação.

Mas um projeto só ocupa o lugar de outro se este morrer de morte matada. Para ilustrar, o avanço dos setores progressistas e de esquerda na América Latina no último período é fruto mais da luta antimperialista e antineoliberal que desempenharam e menos dos impactos sociais dos longos anos de políticas neoliberais. Portanto, trata-se de atuar a partir das condições dadas (e não das desejadas) para abrir novos caminhos por meio da luta política, social e ideológica, sem se limitar às possibilidades que as condições oferecem.

O anúncio de quinta-feira (17) cumpre, entre outras, com a função de criar novas e melhores condições para os tucanos. Retirando-se da disputa interna do PSDB e da disputa de 2010, Aécio não apenas se preserva para outras eleições presidenciais – este é o sentido do final de seu pronunciamento, “Nos reencontraremos no futuro” – como também pavimenta seu campo político para operar em melhores condições a candidatura de Serra. FHC, em nota sobre o anúncio de Aécio, confirma: “Sua disposição para colaborar, com afinco e lealdade, com o PSDB para preparar o caminho que nos levará à vitória em 2010, fala mais forte do que qualquer outra consideração sobre nossas possibilidades de vitória”.

É claro que o fato cria novos dilemas, mas a principal lição a se extrair vem das entrelinhas: enquanto o lado de lá tenta esconder os antagonismos de classes, do lado de cá a estratégia mais acertada é evidenciá-los.

Rodrigo Cesar é militante do PT de Guarulhos/SP

AFRO-BLOG'S