sexta-feira, 26 de março de 2010

Ser Quilombola

Maria Helena Kalunga

Do que adianta ser livre e viver acorrentado ao passado?

Do que adianta ter pernas, se não pode andar, ter braços e poder voar?

Do que adianta ter sonhos e pagar por eles?

Do que adianta querer e não conseguir?

Do que adianta lhe dar asas e cortá-la novamente?

Do que adianta amar o próximo se me ensinam a odiá-lo?

Do que adianta ter leis, se não nos defendem?

Do que adianta aprender, se não posso ensinar?

Do que adianta ter cultura, se não poso preservá-la?

Do que adianta buscar, se não tem onde ir, ou não sei ir?

Do que adianta nadar e morrer na praia?

Do que adianta sorrir, se meu coração chora?

Do que adianta os sonhos, se não posso realizá-los?

Do que adianta me adianta querer ser alguém na vida, se a vida não deixa ser alguém?

Do que adianta ter tantas coisas no mundo, se não podemos tê-las também?

Do que adianta estudar, se não posso ter curso superior?

Do que adianta querer dar um futuro melhor para os meus filhos, se não posso dar?

É a vida de quem mora em um quilombo é assim:

Sonhar, sonhar, sonhar.

Querer, querer e querer.

Lutar, lutar e lutar.

Quem sabe um dia vencer.

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