sexta-feira, 7 de maio de 2010

Eleições 2010: Entre o profissionalismo e o voluntarismo




Por Flávio Loureiro

As eleições de 2010 já começaram? A resposta é sim, para aqueles que como assinalou Max Wevber no seu notório ensaio “A Política e a Ciência – duas vocações”, vivem da e para a política, e para quem circula em tal cercania. Começou para a mídia, que busca construir o seu candidato à Presidência da República, José Serra, e desconstruir a candidatura petista de Dilma Rousseff. O objetivo final é: não vote em Dilma, quem não gosta de Serra, que vote em Marina Silva, pré-candidata presidencial pelo PV, cuja campanha recebe generosos espaços na imprensa nativa.

As pesquisas eleitorais dos institutos amigos só ganham repercussão graças a retaguarda midiática, que atribui tudo o que é possitivo à candidatura tucano-demonista e o que é negativo à da ex-ministra da Casa Civil. E ponto. Mesmo quando Serra comete as suas escorregadas, a mídia logo em seguida corre para socorrê-lo. Como bem destacou Paulo Henrique Amorim, no seu blog “Conversa Afiada”: Por que só a Dilma erra?

A supressão do noticiário da Folha de São Paulo de uma matéria apurada e publicada pelo próprio jornal, que revelava o aumento da criminalidade na cidade de São Paulo não deixa dúvidas. Como destaca o jornalista Luiz Carlos Azenha em seu artigo “Os genéricos de Lula (Não olhe o que tem dentro da caixa)”, postado no seu site e em vários outros, como o Blog do Flávio Loureiro, leitura obrigatória para quem se interessa em conhecer formas modernas de manipulação eleitoral real e virtual, a única novidade nesta campanha é o protagonismo da mídia, que busca de maneira frenética antecipar o processo eleitoral e sentenciar o seu resultado.

Mas se as eleições já começaram para aquele universo destacado no parágrafo em epígrafe, para o distino público , a parcela majoritária do eleitor brasileiro, que é quem de fato e de direito define os seus rumos, o processo eleitoral ainda é algo distante, quase intangível. Logo, qualquer pesquisa neste momento, sejam aquelas favoráveis ao candidato tucano, sejam à petista, devem ser encaradas com as devidas reservas. Basta olhar para os ialtos índices pecentuais de entrevistados que não se posicionam ou se apresentam indecisos, bem como aqueles que fazem a sua opção, mas podem mudá-la.

Que o Serra guarda um consistente patrimônio eleitoral fruto de sua longa trajetória política e que Dilma tende a crescer em função de ser candidata de um governo e de um presidente da República com alta avaliação popular politiva é algo meio óbvio, que os institutos de pesquisa só fazem reiterar e ainda ganham para isso.

O que este momento pré-eleitoral revela por um lado é o alto nível de profissionalização e agressividade da campanha tucana-demonista, que, como revela o artigo de Azenha, guarda clara inspiração na máquina eleitoral republicana norte-americana, que logrou conquistar 45% dos votos, para o iinexpressivo candidato à Presidência do Estados Unidos, John Mc Cain, herdeiro de um governo Bush ferido mortalmente do ponto de vista moral e político.

Por outro lado, nas hostes petistas a impressão transmitida é de uma pré-campanha voluntarista e improvisada, uma postura soberba que se limita a aguardar a escolha do “marqueteiro”, talvez o mesmo que acertou com Lula em 2006 (o candidato, o governo e a conjuntura ajudavam) e errou feio com Marta Suplicy na disputa pela prefeitura de São Paulo, em 2008, e o ingresso definitivo do presidente Lula no horário eleitoral “gratuito” de rádio e TV, para consumar uma vitória antecipada.

Essa impressão não se revela via o noticiário jornalístico, montado com uma clara finalidade já tratada neste artigo, mas por conta do comportamento percebido no interior do PT e do governo Lula, de que a fatura já está liquidada. Um ambiente que se assemelha ao verificado às vésperas do segundo turno da eleição de 2006, quando enquanto a candidatura de Geraldo Alkimin crescia amparada nos escândalos produzidos pela mídia, a coordenação da campanha de Lula no Rio organizava um convescote para comemorar a vitória em primeiro turno e os inúmeros petistas integrados às estatais e à administração pública federal tocavam placidamente as suas rotinas de trabalho e de vida, alheios ao processo eleitoral.

A diferença fundamental, como lembra Azenha no referido artigo, é que a oposição faz agora o que só se permitiu fazer as vésperas do segundo turno de 2006, calcada numa competente estratégia de informação e inteligência, que tem na mídia e no poder judiciário os seus principais alicerces.

Aproveita este período de limbo eleitoral, no qual a desincompatibilização do ministério reduziu a exposição pública de Dilma Rousseff, uma figura pouco conhecida na cena política brasileira, para fazer com que o eleitor a conheça da forma que interessa a estratégia de Serra para vencer as eleições: um poste antipático, inexperiente e autoritário. Enquanto isso, Serra é competente e empreendedor, e Marina é aquela figura frágil e afável que qualquer um gostaria de ter como amiga.

Do lado petista, que até onde se tem notícia não se constiuiu um núcleo estratégico de campanha, os coordenadores da candidatura de Dilma Roussef ora estão voltados para disputas locais e agendas de eficiência duvidosa, como é o caso do ex-prefeito de BH, Fernando Pimentel, ora para a desmontagem de palanques petistas nos estados, como é o caso do presidente nacional do partido, José Eduardo Dutra. Enquanto isso, o PMDB, o noivo tão aguardado, para ganhar tempo trasfere a indicação do seu candidatoo a vice para o mês de junho, e, como é da sua natureza, impõe dificuldades para obter facilidades.

O mais inquietante ainda é que a direção nacional do partido só é convocada para arbitrar confilitos na montagem de palanques estaduais, invariavelmente em favor dos aliados, até mesmo contra históricos aliados, como é o caso do Maranhão, mas não toma para sí a responsabilidade de dirigir a campanha, como fez nas cinco vezes em que Lula disputou a Presidência da República.

Flávio Loureiro, jornalista

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