sábado, 20 de novembro de 2010

O APOGEU DO QUILOMBO DOS PALMARES

* Helcias Pereira

Sabe-se pouco, muito pouco, porém farto o suficiente para expandir consideravelmente o quanto foi rica e dinâmica a história da mais misteriosa e imensurável forma de resistência chamada República Palmarina Quilombola. Certamente ficaram pasmos os senhores da corte com tanta resistência e técnicas de defesa invejáveis, dado à organização dos sublevados. Haveriam de ser impecavelmente organizados e unidos.

O que antes parecera uma simples e indefesa cafua por parte dos senhores de engenho e dos militares da época, o Quilombo dos Palmares passou a ser uma constante dor de cabeça para todos eles, principalmente os governantes que se revezaram por certo impotentes durante um século.

O Quilombo dos Palmares tinha vida própria, munido de regimentos e leis; de culturas e diversidade religiosas, mas, sobretudo, de utopias em busca de dignidade humana, liberdade, justiça e paz.

Seus grandes chefes se valeram de inegáveis inspirações de guerra para manter livre seu povo, articulavam seus postos avançados de inteligência; interagiam juntos a certas pessoas ligadas aos engenhos; infiltravam-se através de seus agentes espiões nas cortes e arraiais e por fim se preparavam para a batalha. Antes, porém, deslocavam grandes partes de sua população para lugares estratégicos, enquanto seus guerrilheiros preparavam no campo e na mata, diversificadas armadilhas, espalhando fossos repletos de estrepes, camuflagens insuspeitas, entre tantas artimanhas de guerrilha avançada.

Sabiam os mesmos o quanto podiam resistir aos inimigos, que antes de serem surpreendidos, haveriam de ter enfrentado toda falta de sorte, desde os obstáculos naturais da mata repleta de insetos e espinhos às mais íngremes serras cujos caminhos abertos a facões inevitavelmente os levava ao cansaço absoluto, deixando-os inertes e indefesos perante a tática palmarina, por sua vez preparados e acostumados aos ”encantos” da mata inóspita.

É natural querermos dinamizar a história, ao imaginarmos tais performances dos aquilombados. Igualmente natural é o entendimento que nem tudo fora tranqüilidade no seio palmarino, devido principalmente às diversidades étnico-culturais e a importância da constante preparação dos seus no tocante a defesa militar daquela comunidade.

Por vezes, vários dos moradores foram punidos inclusive com pena de morte, por infligir certamente aos mandamentos das leis locais, fosse pelo fato de algo material ou qualquer outro tipo de crime que pudesse alterar a vida naquele sistema político. Foi exatamente por conta da forma organizacional e da extensão do Quilombo que os mocambos elegiam seus respectivos chefes, bem como conselhos e comandos militares, além dos grupos de produção tanto na agricultura quanto nas forjas e espaços artesanais.

Outro fato importante, era a necessidade que tinham, principalmente, os mais jovens em se prepararem fisicamente para a guerra, subtende-se aqui que haveriam de se exercitarem em forma de luta, não obstante, não se pode subestimar a possibilidade de haver, já nesta época, um treinamento que nos levaria na contemporaneidade a nos reportar a atual capoeira ou mais primitivo como a caa-puera do tupi-guarani.

Obviamente, pensar no Quilombo dos Palmares não poderia ser diferente de uma sociedade macropolítico-cultural e religiosa onde reinava a liberdade plena e a certeza da unicidade em nome da vida e da dignidade de um povo. Suas lideranças ainda que sistematicamente “monárquicas” visto que Ganga-Zumba era tratado com pompas de Rei, vivenciaram igualmente a realidade de um Estado independente, cujas características republicanas eram absolvidas por um socialismo real e, sobretudo, estrategicamente “poliândrico” onde suas poucas mulheres conviviam maritalmente com até cinco homens ou mais, para não haver disputas internas pelas poucas “fêmeas” presentes nos mocambos.

Aliás, as mulheres quilombolas palmarinas eram observadas como quem “tinham o comportamento leve de uma lebre e o olhar penetrante de uma tigresa’. As mesmas, alem de conviverem e parirem de seus companheiros, ordenavam na casa, cuidavam da roça e ainda se vestiam para a guerra.

No mais, a tática de guerrilha implementada pelos quilombolas palmarinos fora indubitavelmente o grito constante para manter viva a chama da utopia e do apogeu da liberdade e da dignidade de todos.

De Ganga-Zumba (chefe-supremo), filho de Aqualtune (a grande comandante) a Zumbi dos Palmares o último comandante-em-chefe, é preciso reconhecer também a importância de outros nomes que juntos e por tanto tempo organizaram e fizeram resistir o Quilombo dos Palmares. Aqui lembro igualmente: Ganga-Muiça (o chefe soberbo), Ganga-Zona (o prudente), Acaíuba (o grande demolidor), Acotirene (a grande leoa), Andalaquituche (aquele que desaparece), Ozenga (o atalho) e ainda, Camuanga, Dambrabanga, Canhongo, Banga, Camuange, Amaro, Sabalangá e Subupira, naturalmente estendendo “in memorian” todos os guerreiros (as) quilombolas que sucumbiram anonimamente em devesa de seu povo, enquanto sujeitos da história.

Axé Povo de Palmares, Axé povo banto e nagô, axé todas as nações afro-ameríndias que constituíram o maior e mais resistente Quilombo do Mundo.

Axé Zumbi dos Palmares Herói Nacional!

Helcias Roberto Paulino Pereira é:

ü Arte-Educador - Popular

ü Membro-Diretor do Centro de Cultura e Estudos Étnicos ANAJÔ

ü Membro da Coordenação Nacional dos APNs do Brasil

ü Mobilizador Social do Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu

ü Homenageado: Comenda Dandara (11/11/2010) Câmara Municipal de Maceió.

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