domingo, 12 de dezembro de 2010

O equívoco do discurso tecnocrata

Passado o processo eleitoral e redesenhado o mapa político brasileiro no que tange as suas principais instâncias de poder, está-se lançada a oportunidade de (re)pensar as táticas aplicadas, avaliar seus êxitos e reorientá-las no sentido de avançar a luta pela construção do socialismo, que passa necessariamente pela construção de forças não somente no âmbito dos postos de poder, mas dos espaços representativos, nas fábricas e escolas, na cidade e no campo, nas mídias alternativas e assim por diante.



A democracia brasileira, com todos os seus revezes, tem permitido o crescimento das forças de esquerda. Os comunistas nunca tiveram tanta liberdade de exposição de suas ideias, e por isso mesmo são uma força crescente. O mesmo vale para socialistas, trabalhistas de esquerda e organizações de pensamento nacionalista e progressista. A experiência passada que agora encerra talvez sua primeira etapa, de oito anos de Governo Lula, uma coalizão que ia da esquerda para a centrodireita, soma-se à experiência da esquerda também nos postos estratégicos dos âmbitos estaduais e federais.



Temos gradativamente avançado na construção de um país menos contraditório. A direita tem perdido poder não por acaso (bem como tem recuperado em certas localidades, dada a sua habilidade no uso da máquina midiática). Mas o que está atravancando esse avanço, a ponto de ao final de oito anos ainda termos sofrido nas eleições o risco de uma vitória das forças atrasadas do País, reunidas na campanha do PSDB? Há que se pensar a diferença do projeto que vem sendo aplicado no Brasil e daquele que vem sendo aplicado nos países vizinhos, sobretudo Venezuela, Bolívia e Equador, que já se autoproclamaram como países a seguirem o rumo do socialismo. É óbvio que há diferenças absurdas entre as conjunturas de cada país, em matéria de correlação de forças, contradições políticas e responsabilidade internacional, o que impede que nosso governo assuma um caráter revolucionário - some-se a isso, aliás, o fato de que os revolucionários não estão no poder. O que está no poder é um projeto de reformas, mas pelo qual passa necessariamente a construção de um projeto revolucionário. Ou seja, o governo não é revolucionário, mas seu êxito é estratégico.



Descontanda essa conjuntura, afinal as condições objetivas para um projeto revolucionário ainda estão em seu alicerce, e retomando o questionamento lançado no parágrafo anterior, devemos atentar para a necessidade urgente de formação de uma gestão que se assuma enquanto uma gestão pela mudança. Uma gestão ideologizada, com firme propósito de levar o Brasil a uma nova condição de potência, de país vigoroso e unitário, sob a liderança das correntes de pensamento que representam a maioria da população. A vitória da Dilma aponta o desejo do povo de ver aprofundadas as transformações que vêm sendo executadas desde 2003. No entanto, enquanto essas transformações vierem sem a campanha de um projeto nacional democrático que aponte qual seu sentido e sua direção, fatalmente elas findarão se tornando objeto de importância quase nulas em debates que partem de argumentos tecnocratas para outros conservadores e moralistas, quando o debate perde o eixo racional.



O que se pretende dizer com isso? Que não é papel da esquerda defender tal ou qual governo por ele ter construído mais hospitais, por ter aumentado o salário acima da inflação, por ter contratado mais professores ou qualquer coisa nessa linha. Essa simplificação, essa discussão pontual demais tira o sentido transformador que existe no projeto que está em execução. Fatiá-lo em milhões de discussões menores, além do mais, torna menos tortuosa a tarefa da direita de derrotá-las no debate ideolóigico. A discussão pela reformulação da rede tecnológica brasileira passa necessariamente pela reformatação de sua política externa, que se liga à busca de uma nova rota comercial, uma nova lógica econômica antiespeculativa, que prime pelo desenvolvimento e pela redução das desigualdades. Esses e outros são elementos que fazem parte de um elo que não pode ser rompido, sob o risco de recair em uma disputa pueril e limitada. Pelo contrário, deve ser atado a ele outros elementos que ainda não sentem efeitos das mudanças positivas, como a mídia, ainda encastelada sob a égide de meia dúzia de famílias.



Nos estados, governos de esquerda que há uma, duas, ou mais gestões eram preponderantes, estão perdendo espaço, e sob o risco de perder mais. Isso é reflexo direto do fato de não existir campanhas - não somente campanhas eleitorais, mas campanhas permanentes - que exponham essas gestões como partes de um mesmo projeto de remodelação do Brasil.



Quando a esquerda abandonar o discurso tecnocrata e fragmentário, que é mais cômodo por ser conciliador mas que beneficia não a si mas a seu opositor (a direita cristã e oligarca), enfim teremos rompido talvez a etapa mais difícil para enfim aprofundarmos as mudanças que até aqui têm sido feitas e que tenderão a continuar nos próximos anos.

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