quinta-feira, 14 de abril de 2011

I Roteiro de Estudos para Formação Política – 2011

Apresentação

Esse é o passo inicial para a formação política do Coletivo Francisca Trindade: setorial de negras e negros da Articulação de Esquerda, tendência interna do Partido dos Trabalhadores, no estado da Bahia. Esse grupo se constitui para a luta antirracista, reunindo militantes do movimento estudantil, movimento negro e demais movimentos sociais.

Essa iniciativa busca analisar a trajetória do negro, do pensamento racial, e do movimento negro, compreendendo as iniciativas de resistência ao racismo e as diferentes estratégias de organização construídas ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, tentamos suprir uma lacuna na formação política convencional das organizações de esquerda, a saber, a incorporação do pensamento teórico e a experiência acumulada pelos lutadores negros e negras na bibliografia básica dos militantes socialistas.

Assim, não pretendemos conscientizar e gerar políticas apenas para os diretamente ligados a essa questão, mas para todos aqueles que têm a transformação da sociedade em seu horizonte. Entre as características que justificam tanto a nossa organização, quanto esta proposta de formação política é a relação entre raça e classe. Melhor dizendo: não consideramos a luta por igualdade racial destoante da luta por uma sociedade sem classes, sem explorados nem exploradores. Para nós, o marxismo - seja no seu aspecto teórico, seja pelas políticas implementadas por seus defensores - teve (e tem) grandes contribuições para as conquistas dos negros de todo o mundo, da mesma forma, os percursos tomados por esses grupos excluídos traz para o seio do marxismo um conjunto de questionamentos que o faz se renovar, sem perder o que tem de mais vigoroso: a sede por transformação. Não concordamos com aqueles que abdicam do socialismo em nome de um antirracismo capitalista; nem aceitamos que um socialista possa secundarizar a opressão específica que o racismo trouxe à tona, assim como o machismo e a homofobia. Nas nossas leituras priorizaremos analisar criticamente a relação raça e classe (e não, raça versus classe) interpretando as tensões e conexões estabelecidas na história.

Outro viés explorado será a relação gênero e raça. As mulheres negras enfrentam uma soma de dificuldades no seu cotidiano: nas relações de trabalho, nas relações familiares e até mesmo na militância política. O roteiro de estudos dará visibilidade a essa pauta. O debate de ações afirmativas, uma conquista recente do movimento negro no Brasil, tem sido constantemente atacada em diversas frentes: intelectuais, mídia, Congresso Nacional. Nossos estudos também irão focar a trajetória do movimento negro até as ações afirmativas, seu conteúdo, e as concepções de Brasil assumidas por seus detratores.

O Roteiro foi separado em duas partes. A primeira será concentrada na conceituação geral do conceito de raça e do pensamento racial, a relação gênero-raça-classe e aspectos da diáspora africana. A segunda parte discutirá o Brasil: as especificidades do racismo brasileiro, do movimento negro e as ações afirmativas. Na última parte, retomaremos a discussão de gênero e raça, dessa vez, no capitalismo.

Objetivos Gerais

- Entender o conceito de raça e as manifestações de racismo.

- Problematizar a relação raça e classe.

- Analisar a experiência de resistência negra, e do pensamento produzido por suas lideranças da América, África, Ásia, buscando interlocução com o pensamento “clássico” do socialismo.

- Instrumentalizar os militantes para os embates contemporâneos das relações raciais no Brasil.

- Formar militantes para o debate racial tanto na Articulação de Esquerda, quanto no PT, a partir do Coletivo Francisca Trindade.

Objetivos Específicos

- Preparar texto a ser apresentado no I Congresso da Articulação de Esquerda.

- Elaborar propostas de formação política na área de combate ao racismo, para outros segmentos do partido, do governo e dos movimentos sociais.

- Dar organicidade ao Francisca Trindade.

Metodologia

Nessa primeira etapa de formação, serão realizadas quatorze reuniões, uma por semana, debatendo ao todo dez temas. Para cada texto, será escolhido um facilitador, responsável por: a) apresentar um resumo crítico do texto em 10 minutos; b) propor novas bibliografias ou debates conseguintes; c) relacionar os temas com o cotidiano; d) realizar um fichamento do texto. Em cada discussão será escolhido um relator, responsável por sistematizar o debate. Todos os documentos serão arquivados no site. Ao final dessa jornada, será organizado um documento com a síntese das discussões e as propostas de desdobramento teóricos e políticos.

Cronograma

Parte I – Visão Geral e Conceituação

TEMA 1 – História do Pensamento Racial

Objetivo: abordaremos como se constitui o conceito de raça e o pensamento racialista, a partir da Europa e suas implicações na construção do Ocidente; como esse conceito foi manipulado ao longo tempo.

Reunião 1

Arendt, Hanna.“Pensamento racial antes do racismo”, in: Origens do Totalitarismo, pp...

Banton, Michel. “A racialização do Ocidente”, in: A Idéia de Raça, pp. 24-38.

Silveira, Renato. “Os selvagens e a massa: papel do racismo científico na montagem da hegemonia ocidental”. AfroÁsia, pp. 89-146

APOIO:

Banton, Michel. “A racialização do Mundo”, in: A Idéia de Raça, pp. 39-75

Banton, Michel. “Darwinismo Social”, in: A Idéia de Raça, pp 104-116

TEMA 2 - Conceito de raça

Objetivo: discutiremos o uso contemporâneo do conceito de raça, e como ele pode ser instrumentalizado para compreender a realidade brasileira.

Reunião 2

Guimarães, Antônio S. “Como Trabalhar com raça em Sociologia”. Educação e Pesquisa, ene.-jun., año/vol. 29, número 001.

Hanchard, M. “A Raça e a Política Racial”, in: Orfeu e o Poder, pp. 29-42.

Pereira, Amilcar Araújo. “A idéia de raça e suas diferentes implicações”, in “O Mundo Negro”: a constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil (1970-1995). Dissertação em História defendida da UFF, pp 32-44.

TEMA 3 - Gênero e raça.

Objetivo: aspectos gerais sobre o conceito de gênero e suas relações com raça.

Reunião 3

Stepan, Nancy Leys. “Raça e gênero : o papel da analogia na ciência”, in: Hollanda, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses : o feminismo como crítica da cultura, pp 72-96.

Stolke, Verena. “Sexo está para gênero assim como raça está para etnicidade?”. Estudos Afro-Asiáticos, 20, jun. 1991, pp.101-117.

Reunião 4

Feminismo Negro

Objetivo: Compreender a militância das mulheres negras.

Carneiro, Sueli. “Mulheres em Movimento”. ESTUDOS AVANÇADOS 17 (49), 2003 (1-16), pp. 117-132.

Bairros, Luiza. “Lembrando Lélia Gonzalez 1935 - 1994”. Afro-Ásia, número 023.

APOIO: entrevista extraída de “Historias Do Movimento Negro No Brasil: Depoimentos ao Cpdoc”

TEMA 4 - Raça e Classe

Objetivo Geral: na verdade, o enfoque mais geral das reuniões será a relação do marxismo com a questão racial, primeiro de um ponto de vista mais teórico, na última reunião, abordaremos um caso específico: África.

Reunião 5: Gramsci, Lúkaks e etnicidade

Objetivo: Através da contribuição de Hall, discutiremos a relevância de Gramsci, para a questão racial.

Por meio de Said, vamos analisar a apropriação que Fanon fez de Lukács.

Hall, Stuart. “A Relevância de Gramsci para o estudo de raça e etnicidade”, in: Da Diáspora: identidades e mediações culturais, pp. 276-316.

Said, Edward. Cultura e Imperialimo, pp...

APOIO: Textos de Fanon, Lukacs, Gramsci

Reunião 6: marxismo e o pensamento pós-colonial

Objetivo:nesse ponto, mergulharemos nos chamados estudos pós-coloniais, primeiro para estudar a contribuição desses estudos quando trazem à baila autores ignorados pelo pensamento ocidental, segundo, através de Ahmad, debateremos uma lacuna deixada por Said, e como o marxismo pode contribuir para algumas reflexões contemporâneas.

Ahmad, Aijaz. “Orientelismo e depois: ambivalência e posição metropolitana na obra de Edward Said”,

in: Linhagens do presente, pp 109-167.

Said, Edward. In: cultura e imperialismo, pp...

APOIO:

Reunião 7 : Raça e classe no contexto africano

Objetivo: se, no Brasil, alguns consideram a inviável a articulação entre raça e classe, no contexto africano em especial do período das lutas de libertação, a fuga desse discussão era muito mais fácil.

Nem por isso ele deixou de ser feito pelas lideranças africanas mais progressistas. Analisaremos esse processo.

Zamparoni, Valdemir. “Notas sobre classe em África”, in: Entre Narrus e Mulungus. Tese defendida no

Departamento de História da USP, pp 364-393.

APOIO:

Textos de Cabral e Nkrumah

Tema 5 - Pan-africanismo, negritude e afrocentrismo:

Reunião 8

Objetivo: um breve percurso sobre a chamada Diáspora Africana; como nos Estados Unidos, Europa e Caribe se constituirão determinadas solidariedades, expressas em movimentos literários, culturais e políticos.

Domingues, Petrônio José. “Movimento da negritude- uma breve reconstrução histórica”, in: África: Revista do Centro de Estudos Africanos. USP.

Harris, Joseph. “A África e a Diáspora Negra”, in: História Geral da África: África desde 1935, (cap.23) pp. 849-872.

Kodjo, Edem; Chanaiwa, David. “Pan-Africanismo e Libertação”, in: História Geral da África: África desde 1935, (cap 25) pp. 897-924.

APOIO:

Farias, P.F.M. “Afrocentrismo: entre uma contranarrativa histórica universalista e o relativismo cultural”. Afro-Ásia, 29/30 (2003), 317-343.

Texto de Abdias do Nascimento e sobre Fela Kuti

Parte II - Brasil

TEMA 6 - Relações Raciais no Brasil:

Reunião 9

Objetivo: Panorama Geral das relações raciais no Brasil, e seus intérpretes, até os anos 30. Também veremos o uso de Gramsci para análise das relações raciais no Brasil.

Hanchard, Michael. “Democracia Racial: hegemonia à moda brasileira”, in: Orfeu e o Poder, pp. 61-96 e pp. 47-53.

Telles, Edward. “Da Supremacia Branca à Democracia Racial”, in: Racismo à Brasileira. 2003. (41-67).

APOIO:

Motta, Roberto. “Paradigmas de interpretação das relações raciais no Brasil”, in Estud. afro-asiát. [online]. 2000, n.38, pp. 113-133.

FRY, Peter. “Feijoada e “Soul Food” 25 anos depois, in: A Persistência da raça, pp.145-166.

7) Movimento Negro Brasileiro:

Reunião 10: movimento negro até o MNU

Pereira, Amilcar Araujo. Cap 2: “O movimento negro no Brasil, a partir do início do século XX”, in: O Mundo Negro: a constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil (1970-1995), pp 80-105.

Pereira, Amilcar Araujo. Cap 4 - “A constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil”, in: O Mundo Negro: a constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil (1970-1995), pp. 164 -213.

APOIO: entrevista extraída de “Historias Do Movimento Negro No Brasil: Depoimentos ao Cpdoc”

Reunião 11: movimento negro contemporâneo

Pereira, Amilcar Araujo. Capítulo 4 - “A constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil” in: O Mundo Negro: a constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil (1970-1995), pp. 214-239.

Telles, Edward. “Da Democracia Racial à Ação Afirmativa”, in Racismo à Brasileira. 2003, pp. 69-101.

Apoio:

Domingues, Petrônio José. Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos.

APOIO: texto do/sobre a Marcha Zumbi dos Palmares e da conferência de Durban.

8) Debates Contemporâneos

Reunião 12

Objetivo: nesse ponto, contrabalançamos duas perspectivas diferentes das relações raciais no Brasil.

Guimarães, Antônio S. “Depois da democracia racial”. Tempo Social.

Fry, Peter. “Política, nacionalidade e o significado de raça no Brasil”, in: A Persistência da Raça – Ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África austral, pp 205-248.

APOIO:

Fry, Peter. O que a cinderela negra tem a dizer sobre a “política racial” no Brasil. Revista USP ( 2 8 ).

9) Ações Afirmativas

Reunião 13

Fry; Maggie. A reserva de vagas para negros nas universidade brasileiras. ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50), 2004

Munanga, Kabengele. Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil: um ponto de vista em defesa de cotas In: Educação e ações afirmativas:entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica

APOIO: Entrevista Antonio Sergio Alfredo Guimarães; Manifestos a favor e contra cotas.

Parte III

10) Capitalismo, Gênero e raça

Reunião 14

Objetivo: Fechamos os estudos, debatendo gênero e raça, dessa vez, no capitalismo.

Wood, Ellen. “Capitalismo e emancipação humana: raça, gênero e democracia”, in: Democracia contra capitalismo, pp.227-242.

Fontes, Virginia. Capitalismo, Exclusões e Inclusão Forçada. Tempo, Rio de Janeiro, vol. 2, n°. 3, 1996, p. 34-58.

APOIO:

Fontes, Virginia. Sobre a exclusão: alguns desafios contemporâneos. Cad. CRH., Salvador, n.23. p.98-119, jul/dez.1995.

Eduardo Ribeiro "Dudu"
1º Vice-Presidente da União dos Estudantes da Bahia

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