terça-feira, 21 de junho de 2011

Os riscos da revolução democrática para o povo negro.

*Eduardo Ribeiro

Nos últimos anos, setores importantes do Partido dos Trabalhadores caducam de uma miopia política sobre a realidade brasileira: apostaram que compomos hoje um bloco de forças sociais que têm convergido suas perpectivas estratégicas no redimensionamento do Estado brasileiro e que assim, vivemos em um momento onde o nosso programa está a pleno vapor a partir do governo federal. Confundem o programa do governo com o nosso projeto partidário. E setores da luta antirracista tem, perigosamente afirmado esta estratégia enquanto norte para o nosso povo negro. Discorrerei porque discordo dessa opinião.

É importante a constatação de que houve uma ampliação dos direitos sociais conferidos ao conjunto do povo brasileiro a partir da chegada no PT ao governo, com o companheiro nordestino, Lula. Inauguramos um novo ciclo de desenvolvimento no Brasil, que tem melhorado a vida de nosso povo, permitido transformações importantes na execução e formulação de políticas públicas a partir do diálogo com os movimentos sociais e permitido a projeção do país enquanto pólo estratégico da luta política na América Latina.

O fundamental nesse momento é não confundirmos de que lado estamos – porque definitivamente nesse “bloco” não estamos todas e todos do mesmo lado. A implantação de mudanças a partir de políticas sociais comprometidas com a republicanização do Estado brasileiro já começa a encontrar os seus limites na pressão permamente e opressora do capital. A redução de custos na produção imposta pelos capitalistas ainda coloca barreiras à valorização necessária dos rendimentos do trabalho (ainda que observemos a constante valorização do salário) e não altera a balança de opressão capital x trabalho. No Brasil, o povo brasileiro está ganhando mais, mas os capitalistas estão ganhando MUITO mais. A nossa frágil democracia não subverteu qualquer preceito liberal. Muito menos implementou mecanismos socialistas. Não nos enganemos.

A estratégia socialista não pode ser confundida com revolução democrática. A democracia e o capitalismo não são pares, assim como republicanização e socialismo não são complementares.

O Partido dos Trabalhadores viverá no próximo momento a necessidade de diferenciar o seu projeto estratégico dentro de um bloco confuso de forças, hegemonizado ainda pelo republicanismo e ainda comprometido com um conjunto de tarefas da burguesia nacional. Em um próximo momento eleitoral, não conseguiremos mais afirmar a nossa diferença a partir da gestão governamental: um conjunto de jovens que não viveram a era FHC ou a viram passar na infância, inclusive, não terão os mesmos elementos que lhes permita confrontar essas diferenças. Seremos chamadas e chamados a apresentar de forma mais completa e diferenciada o nosso projeto de país.

Atualizar as plataformas de luta da classe trabalhadora brasileira nos colocará necessariamente em confronto com o capital. Os interesses da classe se chocarão conclusivamente com os da burguesia. E não poderemos optar entre etapismo ou imediatismo. Devemos retomar o socialismo para o centro do debate do Partido dos Trabalhadores e impor a pauta antirracista em cada uma de nossas ações. O PT é um patrimônio do povo brasileiro, um instrumento de luta e lugar privilegiado do pensamento socialista brasileiro.

A luta antirracista deve construir outras bases para a revolução socialista, baseado na transformação radical do poder e das instituições e a superação de todas as formas de opressão. A nossa tarefa é construir essa ação no conjunto de forças de esquerda em ascensão na América Latina – o socialismo não nos permite o reducionismo a revolução brasileira. É fundamental recuperarmos o compromisso histórico do principal partido da esquerda brasileira com o socialismo, impulsionar a convergência de forças radicais junto ao movimento negro, feminista, anti-homofóbico brasileiro, e construir uma plataforma de lutas que impulsionem esse novo momento histórico a uma guinada à esquerda no sentido do socialismo revolucionário.

Parabenizo a todas e todos pelo esforço de construirmos o debate sincero, afro-centrado e socialista – sem agressões. As nossas inimigas e inimigos não estão nesse conjunto. Saudações ao companheiro da Diretoria da UNE pelo debate, mesmo considerando as discordâncias.

A(fro)BRAÇOS!

Eduardo Ribeiro "Dudu"
1º Vice-Presidente da União dos Estudantes da Bahia
Articulação de Esquerda - PT

CEJAE-BA

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