domingo, 17 de julho de 2011

Capitalismo, relações de classe e opressões

O final dos anos 1980 e o decorrer dos anos de 1990 são caracterizados, entre outras coisas, pela defensiva estratégica do socialismo, que é acompanhado por um contundente movimento teórico e ideológico no sentido de encurralar o marxismo enquanto alternativa de interpretação da realidade social. Por outro lado, foi um período marcado pela hegemonia neoliberal que coincidiu com ascenso e grande influência do pensamento, inclusive sobre a esquerda, do que comumente denomina-se de pós-moderno.

Virou lugar-comum afirmar-se que vivemos em “tempos pós-modernos” e a reprodução acrítica de teses que buscavam caracterizar esse novo período histórico: fim das grandes narrativas, das ideologias, das alternativas sistêmicas e de qualquer herança do iluminismo. Para os pós-modernos, a ênfase se dá, sobretudo, nos discursos, nas linguagens e na cultura, que dariam forma a sociedade. Desprezam noções como o conhecimento totalizante, valores universalistas como a igualdade e a idéia de emancipação humana geral; buscam se pautar pela idéia da “diferença” e de identidades particulares: como raça, gênero, etnia, sexualidade e suas respectivas lutas particulares e distintas contra as opressões.

O pensamento teórico pós-moderno construiu uma crítica e uma desconstituição da noção de totalidade, substituída pela noção de múltiplas realidades sociais, isto é, pela natureza fragmentada do mundo e do conhecimento humano. As relações de classes representariam apenas mais uma identidade entre tantas outras. Desta maneira, as relações de classes no capitalismo já não teriam mais centralidade histórica. Para outros pós-modernos, não seria mais possível nem se falar em classes sociais. Para estes, a existência de outros modos de dominação que não as relações de classe, outras desigualdades e lutas que não são de classe, seria uma demonstração prática de que o capitalismo, o qual possui as relações de classe como elemento constitutivo, não é um sistema totalizante.

Entretanto, para esses pós-modernos comprovarem suas teses, seria necessário, “demonstrar convincentemente que essas outras esferas e identidades não vem – pelo menos de nenhuma forma significativa – dentro da força determinativa do capitalismo, seu sistemas de relações de propriedade, seus imperativos expansionistas, seu impulso de acumulação, a transformação de toda a vida social em mercadoria, a criação do mercado como uma necessidade, um compulsivo mecanismo de competição [...][i][i]. Ou seja, praticamente não existe aspecto da vida social que não seja determinado pela lógica e pelos imperativos do capitalismo o que torna as teses pós-modernas passíveis de uma profunda contestação.

Pode-se alegar que as lutas contra o racismo e a opressão de gênero não representam um perigo fatal ao capitalismo, isto é o capitalismo pode sobreviver enquanto sistema com o fim dessas opressões, enquanto o fim da opressão de classe representaria o fim do próprio capitalismo. Esse argumento poderia ser utilizado para caracterizar que àquelas lutas específicas não possuem condições e potencial de assumir uma dimensão anticapitalista. Porém, é possível afirmar que estas lutas possuem poucas chances de saírem vitoriosas, se não assumirem também uma dimensão de classe e um caráter anticapitalista.

Isso se deve ao fato de que o capitalismo tem uma enorme capacidade de absorver, se apropriar e reforçar desigualdades e opressões que ele não criou, para fazer uso em prol dos seus interesses de exploração de classe. Vejamos a opressão de gênero: ela existe muito antes do capitalismo surgir, mas ele é capaz de se utilizar da desigualdade entre homens e mulheres para tirar tanto benefícios econômicos como político-ideológicos. Econômico quando, por exemplo, paga à mulher um salário menor num emprego equivalente ao do homem. Político e ideológico quando se aproveita dessa desigualdade e dessa opressão para criar cisões e divisões na sociedade, dificultando a construção da unidade e da solidariedade entre os trabalhadores-as e ainda ser capaz de oferecer cobertura ideológica para as razões estruturais dos problemas sociais e econômicos.

Trato disso, pois creio que há um avanço na nossa tendência na construção das lutas contras as opressões específicas. E acredito também que seja uma dos grandes desafios nossos realizar esta problematização, no sentido de que estas lutas ganhem também contornos anticapitalistas, pois como afirma Ellen Wood, “o capitalismo é constituído pela exploração de classe, mas é mais que um mero sistema de opressão de classes. É um processo totalizador cruel que dá forma a nossa vida em todos os aspectos imagináveis, e em toda parte [...]”. O socialismo não é garantia do fim dessas opressões específicas, embora lutamos para que assim o seja, mas ao menos acaba com as necessidades ideológicas e econômicas do uso dessas opressões que são feitas sob o capitalismo.

Marcos Jakoby,

Militante do PT e da AE de Porto Alegre/RS.

Professor da rede pública do município.


[i][i] WOOD, Ellen. Democracia contra capitalismo. Editora Boitempo, 2003.

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