quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Nota de repúdio da UNE ás agressões e abuso de autoridade na USP

A União Nacional dos      Estudantes (UNE) e a União Estadual dos Estudantes de São Paulo      (UEE-SP) vêm à público manifestar absoluto repúdio aos      injustificáveis episódios de autoritarismo e violência na      Universidade de São Paulo (USP), que culminaram na agressão      realizada por um policial militar – cuja identidade ele escondeu –      ao estudante Nicolas Menezes, aluno da EACH (Escola de Artes,      Ciências e Humanidades), no último dia 6 de janeiro.

 


Registrado em vídeo e      denunciado por meio das redes sociais, o vergonhoso acontecimento      de      violência contra um estudante e ameaça à sua vida com uso de uma      arma de fogo - pelo simples fato de realizar um protesto justo e      pacífico - trazem à UNE e à UEE-SP as piores lembranças e      preocupações remontadas a um período que antecede o atual estado      democrático do país.

 


Sob a alegação de      realizar a desocupação de um espaço dentro do Centro de Vivência      da USP, na Cidade Universitária, no campus Butantã, o policial      negligência o fato de espaço pertencer ao Diretório Central dos      Estudantes (DCE-Livre) da USP e a ocupação ser um protesto pelo      cumprimento de um acordo entre a entidade e a reitoria para a      reforma      e funcionamento do local.

 


Pior do que isso, o      episódio reflete o conjunto de todas as outras recentes ações      desmedidas, arbitrárias e truculentas da reitoria que atentam      contra      a democracia dentro da maior universidade brasileira e uma das 100      melhores do mundo. Soma-se a uma série de outras trapalhadas      autoritárias que o atual reitor da USP vem promovendo ao longo de      sua gestão. A bem dizer, João Grandino Rodas, que promulgou por      conta própria o convênio para a turbulenta presença da polícia      militar no campus, age como um interventor. Vale lembrar que ficou      em      segundo lugar na eleição para a reitoria da USP, quando foi      derrotado pelo professor Glaucius Oliva, do Instituto de Física.      Rodas foi empossado pelo governador do estado valendo-se da      prerrogativa da lista tríplice, uma inversão que não ocorria desde      a ditadura militar.

 


A UNE e a UEE-SP      alertam o conjunto da sociedade de que a onda de autoritarismo      atinge      espaços dentro da USP voltados para a reflexão sobre a      democratização do conhecimento, liberdade para realizar atividades      políticas, manifestações culturais, artísticas e de integração.

 


No dia 21 de dezembro      de 2011, no apagar das luzes do ano, período em que a universidade      se encontra vazia em decorrência das férias, ocorreu a tentativa      de      demolição do barracão onde o Núcleo de Consciência Negra (NCN)      na USP (NCN) desenvolve as suas atividades, também no campus      Butantã. A matemática dessa ação é simples: A reitoria quer que      o NCN desocupe o barracão onde está localizado mas, até o momento,      não apresentou uma alternativa de espaço para que ele desenvolva      seus projetos, dessa forma força o fim da entidade. Como no caso      do      DCE, é um ataque direto à liberdade de pensamento e de organização      dos estudantes dentro do campus.

 


Para aqueles que lutam      por mais democracia, expressam suas idéias dentro da universidade      e      desafiam o poder repressor instituído, a punição máxima é      aplicada. Ainda no apagar das luzes do ano de 2011, seis      estudantes      da USP foram expulsos. Eles participaram da ocupação legítima de      uma sala do Conjunto Residencial da USP (Crusp), em 2010, em      protesto      contra os critérios de seleção e exclusão da Coordenadoria de      Assistência Social, que decide sobre os auxílios-moradia para      estudantes carentes. A sala continua ocupada pelos estudantes, que      chamam a atenção para a necessidade de mais e melhores políticas      de assistência estudantil.

 


A expulsão ideológica      de alunos, a tentativa de extinção do Núcleo de Consciência Negra      e o abuso de autoridade da polícia militar contra estudantes no      campus são eventos que ocorreram após a ocupação, em outubro do      ano passado, dos prédios da Faculdade de Letras, Filosofia e      Ciências Humanas (FFLCH) e da reitoria, em protesto contra o      convênio USP-PM. Essa manifestação ocasionou a desproporcional      invasão da tropa de choque na universidade e a prisão de 73      estudantes. Uma assembléia do corpo discente deflagrou greve geral      e      gerou diversas propostas para substituir a presença da polícia      militar no campus.

 


Na opinião da UNE e da      UEE-SP, soluções para a segurança em uma das mais importantes      universidades do mundo podem ser facilmente implantadas, em      substituição à força repressora do estado. Entre elas estão um      projeto contemporâneo de ocupação criativa do campus, com mais      iluminação, ciclovias, câmeras e a revitalização de espaços      para o desenvolvimento de atividades culturais, esportivas e de      lazer, proporcionando a convivência e integração entre toda a      comunidade acadêmica, frequentadores do campus e comunidade      moradora      ao redor da instituição. Concordamos com a opinião da professora      da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Raquel Rolnik, que      recentemente escreveu artigo para uma revista mensal no qual diz:

 


“O modelo urbanístico      do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação      baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro      dos modelos urbanisticos, porque tem enormes espaços vazios, sem      circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias      horas do dia e da noite. Esse modelo, como o de muitos outros      campi      do Brasil, foi desenhado na época da ditadura militar e até hoje      não foi devidamente debatido e superado”

 


Acreditamos, sim, no      trabalho honesto e competente de parte da PM, mas é notório que      não      é necessária a sua presença ostensiva no interior de uma      instituição que é declarada território livre dos estudantes,      protegida pelo princípio da autonomia universitária e que já      sofreu em outros tempos com perseguições e mortes de estudantes      pelo autoritarismo de uma ditadura militar.

 


O momento de tensão      gerado pela morte de um estudante dentro do campus no ano passado      não      deve ser a justificativa para qualquer tipo de ação por parte da      reitoria que tire a liberdade e a participação da comunidade      acadêmica nos debates e decisões a respeito da universidade. A UNE      e a UEE-SP não toleram essa inversão da lógica na qual, sob a      premissa de agir frente ao assassinato de um estudante, chegou-se      ao      ponto da violência flagrante do estado contra outros, ameaçando      inclusive suas integridades físicas.

 

União Nacional dos Estudantes – UNE

União Estadual dos  Estudantes de São Paulo – UEE-SP
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Jonatas Moreth
3º Vice-Presidente - União Nacional d@s Estudantes
http://twitter.com/jonatasmoreth

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