quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O PT e suas referências

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É notável a semelhança entre as duas imagens acima.
Pode-se imaginar que a tomada da imagem da esquerda (ops!) como referência para o folder de comemoração dos 35 anos do PT tenha partido de um designer contratado para fazer este trabalho. A que aparece aqui foi capturada (ctrl+c, ctrl+v) da tela de um conhecido site de venda de imagens (thinkstockphotos.com). Não podemos garantir que esta foi a fonte do designer, mas essa é uma hipótese bastante plausível. Ela retrata Zeus, o rei dos céus na Grécia Helênica, pai de todos os deuses e homens.
Designers necessitam cultivar um vasto conhecimento, pois que imagens, letras, cores, efeitos visuais etc. vêm carregados de simbolismos, os quais não são passíveis de descarte pura e simplesmente. A Grécia Antiga, e toda a simbologia que produziu, até hoje serve de referência para as sociedades contemporâneas.
Ok, o designer contratado não aprendeu que quando ele toma uma imagem como referência é preciso pesquisar exaustivamente em que contexto ela foi produzida originalmente. Sem isso, ele corre o risco de utilizar uma imagem e trazer junto muito mais do que pegou. A imagem pode vir prenhe dos significados que outrora lhe conferiram, significados estes que serão “lidos” nos dias atuais, quer ele queira ou não.
Ainda que os sujeitos nos dias de hoje não tenham conhecimento de que ali está Zeus com seu raio poderoso prestes a ser atirado contra seus inimigos, a imagem tem algo de arquetípico, atravessa gerações, está presente no inconsciente coletivo, como explicou Jung, desde tempos imemoriais como uma referência, sem que dela tenhamos clareza.
Ok, nosso amigo designer sentiu que aquela era uma imagem forte, simbólica, algo ecoou no fundo do seu ser… mas ele não queria fazer muito esforço para compreender um pouquinho de onde apareceu esse tal de Zeus. Entregou o trabalho e recebeu sua (in)justa remuneração.
Ah, mas designers não trabalham sem que seus clientes aprovem suas criações. Mas quem eram seus clientes, afinal? Milhares e milhares de militantes petistas espalhados Brasil afora. Gente que ajudou a fundar o partido ou que por ele milita há anos, gente jovem que renova e refresca o partido, gente de ambos os sexos, gente de todas as cores e raças, gente com todo tipo de deficiência, gente de todo tipo. Gente, não deuses. Pessoas que fizeram e fazem parte da história do Partido dos Trabalhadores.
Como é muito complexo se fazer uma consulta pública para a escolha da logomarca dos 35 anos, os militantes têm todo o direito de acreditar que os dirigentes do partido, por eles eleitos no último processo de eleições internas, possam avaliar o trabalho do designer e fazer as críticas pertinentes.
O “Zeus” moderno da logomarca, rei sabe-se lá de que, está pronto a atirar a estrela do PT nos seus inimigos? Vamos voltar à luta de pedras e tacapes ao invés do embate de ideias? Porque um homem está ali retratado se o partido é composto também por mulheres? O fato de não vermos um pênis não significa que não reconheçamos um homem na figura. O colorido da imagem é apenas um artifício tosco para remeter à pluralidade de pessoas e ideias dentro do partido? Não cola. E afinal, ninguém lembrou que o homem grego da antiguidade, forte, esbelto, viril como o da logomarca, foi a inspiração do nacional-socialismo alemão? E porque, raios (ops!), deixaram que se colocasse esta frase ufanista que corrobora a ideologia da grandeza dos escolhidos, dos mais fortes, dos que se acham perfeitos, dos filhos meus?
Quanta preguiça mental! Quanta falta de conhecimento geral!
Alô, Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores! Mudem essa logomarca, por favor! Vamos aderir à campanha #PeloAmorDeZeus!
*Conceição Nascimento é Ex-Secretária Nacional de Mulheres do PT
**Sonia Travassos é Antropóloga/militante do PT-RJ

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