terça-feira, 14 de julho de 2015

Quando a confusão (deles) nos ajuda (um pouco e por enquanto)

A prisão de grandes empresários, como parte da Operação Lava Jato, gera uma pressão direta e outra indireta sobre o PMDB e o PSDB. 


A pressão direta é feita pelos empresários, presos ou ameaçados. A indireta é causada pelo temor de que, mais cedo que tarde, a casa caia na cabeça daqueles dois partidos.

A pressão direta e indireta conduz ao mesmo lugar:  é preciso que o PMDB e o PSDB façam um acordo e coloquem  um ponto final nas investigações. 

E o único jeito "aceitável" de fazer isto é colocando um "ponto final" no governo e no PT -- que seriam consagrados como os bodes expiatórios da novela toda.

As recentes reações da presidenta Dilma contra o golpismo mostram que até o governo já se deu conta do enredo. 

Mas deixaram tudo ir tão longe -- sem falar na insistência no ajuste fiscal e na crença na aliança com o PMDB -- que a cada dia torna-se mais difícil deter uma "conspiração" feita à luz do dia e dos holofotes da TV.

Paradoxalmente, o enfraquecimento do PT e do governo despertaram tantos apetites, que há bastante confusão no lado de lá.

O PMDB parece dividido em três "turmas" (evito palavra mais pesada para não ferir suscetibilidades): a de Temer, a de Renan e a de Cunha.

Temer parece agir de forma a) que o mundo não caia na sua cabeça & b) se acontecer algo a presidência caia no colo dele & c) se não acontecer nada ele não passe por traidor.

Cunha quer que o mundo caia na cabeça da Dilma e também de Temer, para que ele assuma a presidência interina (e vai que dá parlamentarismo....).

Já Renan parece querer uma solução via Serra, seja qual for.

O PSDB está igualmente dividido, ao que parece também em três "turmas".

Aécio deseja nova eleição já, para se beneficiar do recall.

Serra parece simpático ao parlamentarismo e contra qualquer coisa que ajude Aécio e Alckmin.

Alckmin prefere 2018 mas também não pode posar como conciliador.

Ou seja: o "golpe" estaria sendo retardado pela divisão entre os potenciais golpistas. 

Divisão que também está relacionada à dúvidas sobre a consistência jurídica da coisa toda (entenda-se: consistência jurídica não é legitimidade, legalidade ou provas, mas sim apoio majoritário nos tribunais). 

E também relacionada aos desdobramentos de médio e longo prazo do golpismo.

As forças democráticas e populares não podem assistir passivas a esta situação, nem podem fazer depender nosso futuro imediato da divisão entre as forças de centro-direita.

Até porque já existe um ambiente na sociedade que pode gerar, a qualquer momento, um fato extraordinário que catalize a definição da crise.

Doença oportunista, lembramos, é fatal para doentes que já estão fracos por outros motivos.

Daí a necessidade urgente das forças democráticas e populares --a começar pelo PT -- saírem da apatia e convocarem uma jornada de mobilização nacional, para que a denúncia do golpismo da direita não fique apenas na retórica.

Mas nada disto adiantará se a presidenta Dilma não politizar sua proverbial coragem. 

Não basta falar duro e firme contra o golpismo. É preciso mudar a política econômica, já! Pois com esta política econômica, é muito difícil mobilizar o povo em defesa da democracia. 

E é preciso mudar a política do governo frente ao PMDB e frente aos meios de comunicação.

Não adianta "reclamar" do golpismo, nem reconhecer que estamos em "ponto morto". 

É preciso construir uma solução diferente daquela que está expressa na equação Levy + PMDB. 

E uma solução não apenas tática, para este momento, mas que também esteja a serviço de outra estratégia.

A "nação petista" -- a maioria dos filiados, simpatizantes e eleitores do Partido --, assim como as bases de todas as forças democráticas e populares, quer resistir de algum jeito e espera que suas direções façam algo e as convoquem à luta. 

Mas certas direções parecem viver noutra dimensão temporal, na qual há tempo para tudo, na qual as coisas vão se arrumando, na qual nada é tão grave quanto parece.

Para além da psicologia, uma das explicações políticas para este comportamento apático e abúlico é que alguns (tanto nas bases do governo, quanto na "oposição de esquerda") já jogaram a toalha e se movimentam de direito para evitar o golpe, mas de fato para disputar os despojos no day after.

Pior do que uma traição, trata-se de um erro: não haverá day nem year after

Em caso de derrota, especialmente de derrota em condições humilhantes, muito tempo passará até que outra esquerda consiga reerguer-se.

Claro: tudo pode acontecer tudo, inclusive nada. A coisa está tão confusa, que tanto pode reverter, quanto ter um desfecho súbito por fatores que ninguém controla, como pode se arrastar, arrastar, arrastar...

Mas tampouco esta última é boa alternativa, até porque ela produz umarendição & desmoralização em câmera lenta, da qual é exemplo o recente acordo de "preservação de emprego" com redução de salários.

Na ausência (até agora) de um comando nacional e na ausência (até agora) de uma política de governo que contribua para a reação, o que deve ser feito?

Propomos:  1) insistir na mudança da linha do partido e do governo; 2) insistir na mobilização e na retomada do trabalho de massa; 3) construir a frente democrática e popular; 4) reforçar em nossa pauta a defesa da democracia e contra o golpismo.

E preparar-se para agosto, pois há sinais de que a direita pretende ir muito além do que fez em março. E em mês de agosto, especialmente no Brasil, cachorro solto é especialmente perigoso.

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