sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A urgência política pede uma direção de transição no PT

Por Jeferson Miola

Neste momento há uma confluência perigosa de crises. O ambiente “razoavelmente grave” pode evoluir para o que o vice-presidente Michel Temer cautelosamente chama de “crise desagradável para o país”.
É notável a articulação, o fôlego e a versatilidade da ofensiva conservadora, com sua rede bem coordenada de partidos, intelectuais, mídia, capital financeiro e personagens incrustados no MP, na PF e Judiciário.
O bloco da classe dominante conta, a seu favor, com variáveis determinantes: a Lava Jato em fase de expansão para outros setores, uma odiosa campanha jurídico-midiática, a doentia oposição congressual e a economia em séria recessão.
O padrão da luta política-jurídica-midiática flerta irresponsavelmente com a regressão democrática e institucional do país.

Esta conjuntura que requer capacidade de direção e visão estratégica encontra, contudo, um PT acuado e intimidado. A mais dramática ameaça à governabilidade do país e à própria sobrevivência do PT se combina com uma importante crise de direção política, e com uma insustentável insuficiência do Partido enquanto sujeito histórico.
A prisão do Zé Dirceu acentuou a urgência política do momento; atingiu brutalmente o PT. Para a escritora Helena Buarque de Hollanda, os motivos da prisão dele causam “uma dor que os anos 1960 não merecem”. Apesar disso, a Executiva do PT emitiu uma nota triste, decepcionante, porque já não é intérprete da ética petista.
A direção do PT não conseguiu superar as contradições de perspectivas entre suas tendências internas; e, obrigada por mediações pouco inteligentes e alheias à realidade, foi perdendo moral dirigente e credibilidade pública.
Ela perdeu discurso narrativo e capacidade para convocar a resistência democrática e fazer a denúncia da onda reacionária e conspiradora. Enquanto isso, os abutres se lambuzam na pajelança golpista, excitados com o cheiro do “sangue do Lula” borrifado no ar por procuradores e policiais federais, os justiceiros da República.
A urgência política pede uma direção de transição no PT, constituída de figuras públicas incontestáveis em termos éticos e republicanos. Uma direção que tenha autonomia para render contas à sociedade sobre os desvios estranhos à origem do PT perpetrados por aqueles que, com suas práticas, divorciaram o Partido da utopia transformadora.
O PT precisa ser um ator crédulo na denúncia da campanha jurídico-midiática para poder enfrentar com coragem e respeitabilidade a delinquência oposicionista. Mas a direção atual dá mostras de sobra de sua insuficiência em responder a esta conjuntura que, tudo indica, tende a se deteriorar.
O PT conhece sua transcendência no cenário internacional. Seu derrocamento seria um desastre para o conjunto da esquerda brasileira, latino-americana e mundial. E seria, certamente, fator de desestabilização das conquistas progressistas na América do Sul.
Resistir e recuperar seu lugar no imaginário do povo brasileiro e da esquerda regional e mundial é a responsabilidade histórica do PT na travessia dessa conjuntura complexa. A renúncia da atual direção, para que uma direção de transição conduza o PT nestes tempos de dificuldades tenebrosas, seria uma prova de sensatez política e de sensibilidade histórica.

Fonte: Carta Maior

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